Pular para o conteúdo principal

SERÁ O ASFALTO UM INDICADOR DE DESENVOLVIMENTO?

 

SC414, na altura do Braço Direito, Massaranduba.


A comunidade que vive às margens da SC-414, que conecta a Vila Itoupava a Luiz Alves, passando por Massaranduba, aguarda o asfaltamento da via desde os anos de 1980. Em 2022, após anos de promessas e diversos projetos, a obra finalmente iniciou-se, mas sob o olhar desconfiado da população. A empresa responsável abandonou o projeto alguns meses depois. Recentemente, uma nova empresa assumiu a obra, que agora avança. Aproximadamente 40% da via já está concluída, e nos últimos dias, recebeu a primeira camada de sinalização. O progresso é visível, mas provoca um misto de emoções.

Diante do avanço das obras, as pessoas estufam o peito para afirmar que "o desenvolvimento chegou ao interior". Essa frase traz, além de um sentimento de alívio, uma perspectiva de mudança. No entanto, cabe questionar: que tipo de desenvolvimento é esse que uma simples camada de asfalto representa? Para muitos, talvez signifique a valorização dos terrenos, a possibilidade de novos negócios ou maior visibilidade para a região. Mas será que isso, por si só, é desenvolvimento?

O economista indiano Amartya Sen define o desenvolvimento como a expansão das liberdades efetivas das pessoas. Ele desvincula o desenvolvimento do mero acúmulo de capital ou indicadores econômicos e o vê como um processo que permite às pessoas agirem de acordo com suas aspirações, promovendo justiça social. Ao refletir sobre isso, pergunto-me: que outros aspectos sociais e comunitários esta obra de asfaltamento trará? Ela atenderá somente aos interesses individuais ou contribuirá para a construção de uma comunidade mais justa e inclusiva?

Para Sen, o desenvolvimento não se resume a melhorias materiais. Ele pressupõe a liberdade para que as pessoas possam agir e escolher como querem viver. Portanto, sem justiça social, a simples presença de asfalto não representa, necessariamente, desenvolvimento. O asfalto é somente um instrumento, e seu valor real só se manifesta quando acompanhado de oportunidades reais para a comunidade, como educação, saúde, infraestrutura social e participação ativa dos moradores.

Portanto, o asfalto é um passo importante, mas é somente uma parte do processo. Para o desenvolvimento ser verdadeiro, é preciso que ele se traduza em melhorias que beneficiem a todos, promovendo justiça social e a expansão das liberdades individuais. A obra, por si só, não garante isso. É necessário que ela seja acompanhada de projetos sociais, políticas públicas e ações que garantam a participação e o bem-estar da comunidade na totalidade.

Sugestão de leitura:

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Comentários