Pular para o conteúdo principal

Postagens

UMA CATEQUESE PARA VIVER A MISSÃO

Ação do catequista é por natureza uma ação missionária (DC, 2020). Essa atividade integra a missão da Igreja, visto que não constitui um ato isolado, mas sim uma ação comunitária que, diante dos desafios do tempo presente, exige novo vigor. A experiência missionária amplia horizontes e convoca a um recomeço a partir de Cristo. Neste processo algumas características são fundamentais: o caminho exige amadurecimento constante e linguagem de testemunho; a fraternidade torna-se critério de autenticidade; a solidariedade assume papel estruturante. Diante disso a ação do catequista missionário passa a ser urgência e identidade. “O estado permanente de missão implica grande disponibilidade em repensar muitas estruturas pastorais, tendo como princípios  constitutivos a espiritualidade de comunhão e a audácia (disponibilidade) missionária” (CELAM, 2008, p. 11). O catequista deixa de atuar como um “professor” de sala para viver em estado permanente de missão, o que por sinal, exige revisão p...
Postagens recentes

O QUE HAVIA NAS MARGENS DO GRANDE RIO ANTES DA INVENÇÃO DE BLUMENAU?

  Figura 1: foto divulgada no perfil @blumenauantiga, no Instagram. Colorida pelo pesquisador com ajuda de inteligência artificial. Atualmente foz do Ribeirão Garcia, ao fundo a "prainha", Ponta Aguda. A descolonização da história é um processo complexo que envolve repensar as narrativas que moldam nossa compreensão do passado, este alerta é descrito na obra Descolonizar: abrindo a história do presente , do português Boaventura de Souza Santos (2022) . Não se trata de apagar a história, mas de questionar as lentes pelas quais a vemos. A história não é uma verdade imutável, mas sim, um diálogo entre múltiplas vozes e perspectivas, como nos ensinou Félix Guattari e Gilles Deleuze (2011). Ao reconhecer que a história é construída socialmente, somos convidados a repensar como as narrativas do passado foram moldadas por poder e privilégio, muitas vezes silenciando ou marginalizando vozes importantes. A descolonização da história é, portanto, um convite para incluir e valori...

A AUTORIA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: UMA REFLEXÃO A PARTIR DE ROLAND BARTHES

       O advento das Inteligências Artificiais Generativas impõe um desafio imediato à a compreensão tradicional de narrativa e criação. Embora já tenha escrito sobre o tema, a reflexão não está finalizada. Para analisar esse fenômeno, recorre agora à tese de Roland Barthes (2004) no texto A Morte do Autor . Ao aplicar lógica de Barthes aos textos produzidos por algoritmos, observa-se um deslocamento radical que é a figura do autor-indivíduo é substituída por uma máquina que processa e replica padrões de aprendizado. Para o pensador francês a autoria, como conceito fundamentado na subjetividade, surge na modernidade e parece encontrar seu esgotamento na pós-modernidade. Nesse cenário, a linguagem torna-se, muitas vezes, "pasteurizada", perdendo o rastro da individualidade em favor de estruturas predefinidas. A IA Gen acentua esse processo ao operar não por autonomia criativa, mas por uma lógica técnica que permanece desconhecida ou mal compreendida pelo grande púb...

UMA IMAGEM CRIADA POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PODE SE TORNAR UMA OBRA DE ARTE?

  Em outubro de 2018, o mercado de arte tradicional experimentou um tremor ontológico. Na Christie’s, o coletivo parisiense Obvious leiloou a obra "Edmond de Belamy", pertencente à série "La Famille de Belamy". O martelo bateu em impressionantes 432 mil dólares, mas o verdadeiro assombro não residia na cifra, e sim na autoria. A imagem foi gerada por um algoritmo de Inteligência Artificial (IA). A venda provocou debates pelo mundo inteiro. Estaríamos diante de um novo artista ou apenas de uma ferramenta sofisticada? O debate, que ocupou do The Guardian ao portal Tilt, questiona se um código treinado pode ser elevado ao status de criador. O jornal inglês The Guardian questinou-se , o evento não foi apenas um marco comercial, mas o sintoma de uma transição profunda no conceito de autoria e criatividade. É um equívoco considerar a tecnologia uma intrusa recente no ateliê. A arte visual sempre foi indissociável da t é chne, a habilidade técnica que transforma a matér...

A VERDADE EM SANGUE: O QUE APRENDI COM BARTOLOMEU DE LAS CASAS

  Mataram uns 12 milhões de indígenas, contabiliza Las Casas - RED A “ e ra dos d escobrimentos”, no período da América Colonial, foi muitas vezes envolta por narrativas românticas sobra a exploração da América. O frei dominicano Bartolomé de Las Casas, ou Bartolomeu, na obra O paraíso destruído (2001) revel ou uma tapeçaria de sangue. Ele documenta um “ p araíso t errestre” transformado em “ a bismo” de “ o pressão a bominável”, praticado pelo europeu que chegou com sede insaciável de ouro . A revelação mais perturbadora não é apenas a escala da carnificina, mas a identidade da própria testemunha. Antes de sua conversão, por volta do ano d e 1502 Las Casas participou da mesma “história sangrenta” que mais tarde condenaria. A ntes de tornar-se religioso ele chegou a s Ilha s de Cuba e Hispaniola, como conquistador. Próximo a vila de Caonao ordenou a decapitação de sete mil índios. Sua transformação de perpetrador de massacres em “ p rotetor dos í ndios” começou com u...

ESCREVER É UM DELÍRIO

  Versão 1 Na história, em diferentes níveis, sempre se aprendeu primeiro a falar e depois a escrever. O falar nasce de uma certa espontaneidade. A criança, sem muita vergonha ou neurose, inventa palavras, cria contextos e, com a imaginação, amplia o mundo. “Eu consigo passar num segundo, giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo”, já nos ensinou Toquinho (1983). As primeiras palavras de uma criança são festejadas e sua imaginação não se importa com os limites impostos. Ela fala, fala e fala... as regras do falar da criança são construídas e reconstruídas em cada frase. Não há uma má-gramática do falar, apenas a vontade. E quando a criança chega à escola, da fala surge a escrita. Há um corte.  A escrita, por sua vez, assume outra característica, diante das regras e das gramáticas, transforma-se em algo talvez menos divertido que o falar. Para pensar essa relação com a escrita, recorro a Gilles Deleuze (1997). Para o pensador francês, “escrever é um caso de devir, ...

E SE TODA A VIDA FOSSE UM ACONTECIMENTO...

  E a vida? E a vida, o que é? Diga lá, meu irmão Ela é a batida de um coração? Ela é uma doce ilusão? Ê-ô (O que é, o que é? Letra de Gonzaguinha)   A vida é a simples batida do coração ou ela é força motriz que dá sentido ao coração? Ou haverá outras reflexões que nossa vã filosofia supõe pensar?   Para pensar a questão da vida, recupero conceitos de Gilles Deleuze apresentados na obra Diferença e Repetição (2018). Nela, o autor apresenta o conceito de acontecimento. Acredito que o acontecimento seja fundamental para pensar a vida. Para Deleuze o acontecimento possui um sentido diferente daquele empregado pelo senso-comum, o acontecimento não é um fato. O fato pertence ao nível empírico, àquilo que se inscreve na imediaticidade do tempo cronológico. Já o acontecimento diz respeito a algo que se torna significativo, marcando de forma singular a experiência e vivenciado em “outro tempo”, o que o grego antigo chamou de aíon. Há diferenças entre chrónos (...