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UMA IMAGEM CRIADA POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PODE SE TORNAR UMA OBRA DE ARTE?

  Em outubro de 2018, o mercado de arte tradicional experimentou um tremor ontológico. Na Christie’s, o coletivo parisiense Obvious leiloou a obra "Edmond de Belamy", pertencente à série "La Famille de Belamy". O martelo bateu em impressionantes 432 mil dólares, mas o verdadeiro assombro não residia na cifra, e sim na autoria. A imagem foi gerada por um algoritmo de Inteligência Artificial (IA). A venda provocou debates pelo mundo inteiro. Estaríamos diante de um novo artista ou apenas de uma ferramenta sofisticada? O debate, que ocupou do The Guardian ao portal Tilt, questiona se um código treinado pode ser elevado ao status de criador. O jornal inglês The Guardian questinou-se , o evento não foi apenas um marco comercial, mas o sintoma de uma transição profunda no conceito de autoria e criatividade. É um equívoco considerar a tecnologia uma intrusa recente no ateliê. A arte visual sempre foi indissociável da t é chne, a habilidade técnica que transforma a matér...
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A VERDADE EM SANGUE: O QUE APRENDI COM BARTOLOMEU DE LAS CASAS

  Mataram uns 12 milhões de indígenas, contabiliza Las Casas - RED A “ e ra dos d escobrimentos”, no período da América Colonial, foi muitas vezes envolta por narrativas românticas sobra a exploração da América. O frei dominicano Bartolomé de Las Casas, ou Bartolomeu, na obra O paraíso destruído (2001) revel ou uma tapeçaria de sangue. Ele documenta um “ p araíso t errestre” transformado em “ a bismo” de “ o pressão a bominável”, praticado pelo europeu que chegou com sede insaciável de ouro . A revelação mais perturbadora não é apenas a escala da carnificina, mas a identidade da própria testemunha. Antes de sua conversão, por volta do ano d e 1502 Las Casas participou da mesma “história sangrenta” que mais tarde condenaria. A ntes de tornar-se religioso ele chegou a s Ilha s de Cuba e Hispaniola, como conquistador. Próximo a vila de Caonao ordenou a decapitação de sete mil índios. Sua transformação de perpetrador de massacres em “ p rotetor dos í ndios” começou com u...

ESCREVER É UM DELÍRIO

  Versão 1 Na história, em diferentes níveis, sempre se aprendeu primeiro a falar e depois a escrever. O falar nasce de uma certa espontaneidade. A criança, sem muita vergonha ou neurose, inventa palavras, cria contextos e, com a imaginação, amplia o mundo. “Eu consigo passar num segundo, giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo”, já nos ensinou Toquinho (1983). As primeiras palavras de uma criança são festejadas e sua imaginação não se importa com os limites impostos. Ela fala, fala e fala... as regras do falar da criança são construídas e reconstruídas em cada frase. Não há uma má-gramática do falar, apenas a vontade. E quando a criança chega à escola, da fala surge a escrita. Há um corte.  A escrita, por sua vez, assume outra característica, diante das regras e das gramáticas, transforma-se em algo talvez menos divertido que o falar. Para pensar essa relação com a escrita, recorro a Gilles Deleuze (1997). Para o pensador francês, “escrever é um caso de devir, ...

E SE TODA A VIDA FOSSE UM ACONTECIMENTO...

  E a vida? E a vida, o que é? Diga lá, meu irmão Ela é a batida de um coração? Ela é uma doce ilusão? Ê-ô (O que é, o que é? Letra de Gonzaguinha)   A vida é a simples batida do coração ou ela é força motriz que dá sentido ao coração? Ou haverá outras reflexões que nossa vã filosofia supõe pensar?   Para pensar a questão da vida, recupero conceitos de Gilles Deleuze apresentados na obra Diferença e Repetição (2018). Nela, o autor apresenta o conceito de acontecimento. Acredito que o acontecimento seja fundamental para pensar a vida. Para Deleuze o acontecimento possui um sentido diferente daquele empregado pelo senso-comum, o acontecimento não é um fato. O fato pertence ao nível empírico, àquilo que se inscreve na imediaticidade do tempo cronológico. Já o acontecimento diz respeito a algo que se torna significativo, marcando de forma singular a experiência e vivenciado em “outro tempo”, o que o grego antigo chamou de aíon. Há diferenças entre chrónos (...

HÁ UM PENSAMENTO GENUINAMENTE BRASILEIRO?

Neste breve relato pretendo comentar brevemente o livro Crítica da Razão Tupiniquim (1979), escrita pelo filósofo brasileiro e blumenauense Roberto Gomes. Ele ataca ostensivamente a falta de personalidade e originalidade da Filosofia brasileira, que se mantêm ao longo dos tempos, atrelada a modelos educacionais eurocêntricos, fato que reflete a dependência cultural que há muito nos acompanha e nos coloca diante daquele complexo de vira-lata, que é uma herança colonial Roberto Gomes provoca o leitor afirmando que, “por mais abstrato que possa parecer um pensamento, ele sempre traz em si a marca de seu tempo e lugar”. Com isso afirma que toda forma de pensar está vinculada a um contexto sócio-histórico, e que, fora dele, a compreensão torna-se difícil ou até mesmo destituída de sentido. Entre os exemplos utilizados por ele: “como entender Hegel sem a Revolução Francesa?” ou ainda, como entender a educação brasileira sem considerar sua herança colonial? O pensamento é algo original que ca...

ANUNCIAR E TESTEMUNHAR JESUS CRISTO

 A vida da Igreja só pode ser compreendida à luz do próprio Jesus Cristo. Ele é o fundamento da fé e o sentido de toda a atividade pastoral. Quando alguém se depara com as exigências da evangelização, o coração se inquieta na busca dos melhores caminhos de seguimento amado e assumindo-o como Senhor da vida do povo. Um conhecimento insuficiente do Filho de Deus gera, inevitavelmente, uma compreensão limitada de sua missão salvífica e da própria razão da existência humana. Não existe meia missão.  A Bula Pontifícia de São João Paulo II, Mistério da Encarnação , 1988, enfatiza: “Jesus é verdadeiramente a realidade nova que supera tudo quanto a humanidade pudesse esperar, e que permanecerá para sempre ao longo das épocas sucessivas da história. Deste modo, a encarnação do Filho de Deus e a salvação que realizou com sua morte e ressurreição são o verdadeiro critério para avaliar a realidade temporal e qualquer projeto que procure tornar a vida do homem cada vez mais humana” (João P...

EU SOU SHUTRUCK-NAHUNTE, REI ELAM

  Nas próximas linhas analisarei a questão do protagonismo a partir do exemplo do rei Shutruck-Nahunte de Elam. Um rei elamita conhecido por destruir a cidade de Sippar (Quinta; Abaslou, 2020). Este caso oferece um paradigma interessante para refletir sobre a importância e as consequências do protagonismo nas ações, não somente de um governante, mas na ação humana. Figura 1 : Timk70 (talk · contribs) - This file was derived from: Elam Map-de.svg:, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=50493370 A destruição de Sippar por Shutruck-Nahunte foi um ato que ilustra a capacidade de um líder de exercer um protagonismo extremo. Este ato foi, talvez, motivado pelo desejo de glória, poder e, possivelmente, pela busca de expansão territorial ou vingança contra inimigos. No entanto, é crucial questionar se tal protagonismo contribuiu para o bem comum, ou melhor, questionar sua validade e pensar como as pessoas envolvidas se sentiram. A destruição de uma cidade, Sippar...