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PRIMEIRO ENSAIO PARA PENSAR UMA EPISTEMOLOGIA DO EXCLUÍDO

  Em janeiro fui comprar um livro de presente para um amigo. Quando compro livros trago um para minha biblioteca. Nem todos os livros presentes nela foram lidos. Certa vez, Umberto Eco afirmou: “é tolice pensar que tem de ler todos os livros que compra, pois é tolice criticar aqueles que compram mais livros de que alguma vez conseguiram ler. Seria como dizer que deve usar todos os talheres ou óculos ou chaves de fenda que comprou antes de comprar novos”.  O livro de Boaventura (Santos, 2022) foi escolhido para a biblioteca porque cada vez que usava o conceito de descolonizar, precisava buscar algum artigo para referenciá-lo. Agora tenho a fonte. O uso do conceito descolonizar em meus textos tornou-se frequente. Não quero falar do texto, mas realizar uma primeira explanação de algo que tem causado incômodos. Se uma leitura não trouxer interrogações, ela simplesmente passou e esta é a primeira vez que abordo o conceito. Em "Descolonizar", o autor oferece uma crítica contundente...
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ALÉM DA DEMOCRACIA

  Este texto pretende refletir, em poucas linhas, três modelos de resistência diante da ordem global massiva imposta pela política externa estadunidense. Enquanto o ocidente discute o que fazer para que as democracias não morram (Levitsky; Ziblatt, 2011), China, Coreia do Norte e Cuba vivenciam experiências de sobrevida. “O caminho para o desenvolvimento não é tão simples como apontado por Adam Smith quando ele dizia que pouco mais é necessário para conduzir uma nação do mais baixo barbarismo até o mais elevado grau de opulência do que paz, impostos razoáveis e uma administração tolerável da justiça; tudo o mais sendo trazido pelo curso natural das coisas” (Guimarães, 2012, p. 103). Como alinhar desenvolvimento com democracia? O cenário geopolítico contemporâneo atravessa uma transformação estrutural profunda. A ascensão da China desafia os modelos tradicionais de governança ocidental. Desde 1978, mudanças econômicas catalisaram um crescimento sem precedentes históricos. Este fe...

A FERIDA ORIGINAL: ROUSSEAU E O PROBLEMA DA PROPRIEDADE PRIVADA NO CAPITALISMO

“O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: isto é meu, e encontrou pessoas bastantes simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estadas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes” (Rouasseu, 1973, p. 265). O texto que refletirá sobre a propriedade privada a partir de Rousseau. Em conjunto com o autor serão utilizados versos da Canção da Terra (2011) da trupê dO Teatro Mágico.  A crítica de Jean-Jacques Rousseau (1712–1778) à propriedade privada permanece como uma das mais contundentes reflexões sobre a origem da desigualdade humana. Seu argumento é direto: a propriedade privada gera a desigualdade. O que outrora era comunal, mediante o cercamento, converteu-se em posse individual. Embora escrita no século XVIII, a análise ressoa com crítica ao capitalismo contemporâneo, no qual a propriedade o eixo...

UMA CATEQUESE PARA VIVER A MISSÃO

Ação do catequista é por natureza uma ação missionária (DC, 2020). Essa atividade integra a missão da Igreja, visto que não constitui um ato isolado, mas sim uma ação comunitária que, diante dos desafios do tempo presente, exige novo vigor. A experiência missionária amplia horizontes e convoca a um recomeço a partir de Cristo. Neste processo algumas características são fundamentais: o caminho exige amadurecimento constante e linguagem de testemunho; a fraternidade torna-se critério de autenticidade; a solidariedade assume papel estruturante. Diante disso a ação do catequista missionário passa a ser urgência e identidade. “O estado permanente de missão implica grande disponibilidade em repensar muitas estruturas pastorais, tendo como princípios  constitutivos a espiritualidade de comunhão e a audácia (disponibilidade) missionária” (CELAM, 2008, p. 11). O catequista deixa de atuar como um “professor” de sala para viver em estado permanente de missão, o que por sinal, exige revisão p...

O QUE HAVIA NAS MARGENS DO GRANDE RIO ANTES DA INVENÇÃO DE BLUMENAU?

  Figura 1: foto divulgada no perfil @blumenauantiga, no Instagram. Colorida pelo pesquisador com ajuda de inteligência artificial. Atualmente foz do Ribeirão Garcia, ao fundo a "prainha", Ponta Aguda. A descolonização da história é um processo complexo que envolve repensar as narrativas que moldam nossa compreensão do passado, este alerta é descrito na obra Descolonizar: abrindo a história do presente , do português Boaventura de Souza Santos (2022) . Não se trata de apagar a história, mas de questionar as lentes pelas quais a vemos. A história não é uma verdade imutável, mas sim, um diálogo entre múltiplas vozes e perspectivas, como nos ensinou Félix Guattari e Gilles Deleuze (2011). Ao reconhecer que a história é construída socialmente, somos convidados a repensar como as narrativas do passado foram moldadas por poder e privilégio, muitas vezes silenciando ou marginalizando vozes importantes. A descolonização da história é, portanto, um convite para incluir e valori...

A AUTORIA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: UMA REFLEXÃO A PARTIR DE ROLAND BARTHES

       O advento das Inteligências Artificiais Generativas impõe um desafio imediato à a compreensão tradicional de narrativa e criação. Embora já tenha escrito sobre o tema, a reflexão não está finalizada. Para analisar esse fenômeno, recorre agora à tese de Roland Barthes (2004) no texto A Morte do Autor . Ao aplicar lógica de Barthes aos textos produzidos por algoritmos, observa-se um deslocamento radical que é a figura do autor-indivíduo é substituída por uma máquina que processa e replica padrões de aprendizado. Para o pensador francês a autoria, como conceito fundamentado na subjetividade, surge na modernidade e parece encontrar seu esgotamento na pós-modernidade. Nesse cenário, a linguagem torna-se, muitas vezes, "pasteurizada", perdendo o rastro da individualidade em favor de estruturas predefinidas. A IA Gen acentua esse processo ao operar não por autonomia criativa, mas por uma lógica técnica que permanece desconhecida ou mal compreendida pelo grande púb...

UMA IMAGEM CRIADA POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PODE SE TORNAR UMA OBRA DE ARTE?

  Em outubro de 2018, o mercado de arte tradicional experimentou um tremor ontológico. Na Christie’s, o coletivo parisiense Obvious leiloou a obra "Edmond de Belamy", pertencente à série "La Famille de Belamy". O martelo bateu em impressionantes 432 mil dólares, mas o verdadeiro assombro não residia na cifra, e sim na autoria. A imagem foi gerada por um algoritmo de Inteligência Artificial (IA). A venda provocou debates pelo mundo inteiro. Estaríamos diante de um novo artista ou apenas de uma ferramenta sofisticada? O debate, que ocupou do The Guardian ao portal Tilt, questiona se um código treinado pode ser elevado ao status de criador. O jornal inglês The Guardian questinou-se , o evento não foi apenas um marco comercial, mas o sintoma de uma transição profunda no conceito de autoria e criatividade. É um equívoco considerar a tecnologia uma intrusa recente no ateliê. A arte visual sempre foi indissociável da t é chne, a habilidade técnica que transforma a matér...