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Mostrando postagens com o rótulo Félix Guattari

EU TENHO MEDO DE COMUNISTAS

O que significa ser comunista? Esta é uma questão que me inquieta há tempos. Em novembro de 2006, o então presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rabelo, na ocasião PCdoB (Partido Comunista do Brasil), assumiu temporariamente a Presidência da República.  Tratava-se do primeiro presidente “comunista”, desde Jango (1961-1964), então PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Na ocasião, em 2006, ao chegar à padaria encontrei uma senhora aos prantos. “Agora o Brasil vai se tornar um país comunista, terei que dividir minha casa com um estranho”. Em lágrimas ela comprou pão e foi embora. A cena daquele desespero da ignorância ficou gravada. Afinal, quem tem medo de comunista teme exatamente o que? Para auxiliara pensar esta questão, recorro a Negri e Guattari (2017). No primeiro capítulo da obra As verdades nômades, os autores apresentam um texto que ajuda a pensar o temor. Eles dizem, “todas as revoluções foram traídas e nosso futuro parece carregado de uma inércia histórica insuportável”...

POR UM MUNDO COM MAIS TÉDIO

  “ Moramos na cidade, também o presidente. E todos vão fingindo decentemente. Só que eu não pretendo ser tão decadente, não! Tédio, com um T bem grande para você !” (Renato Russo, Legião Urbana, 1987). A música que abre o texto é uma gravação do rock brasileiro no período da redemocratização do Brasil. Momento da história em que as músicas marcavam um grito pela liberdade de expressão e questionamentos da superficialidade da vida urbana. Jovens insatisfeitos com os rumos marcados pela ditadura militar (1964-1985), viviam “fingindo decentemente” enquanto eram perseguidos em razão de suas opiniões. Expressar-se era um perigo. Falas superficiais, durante a ditadura representava segurança. O país vivencia sucessivas crises econômicas que distanciavam os jovens do ingresso ao mundo do trabalho, a hiperinflação diminuía o poder compra e a aumentava dificuldade de acesso ao ensino superior. A vida na cidade era superficial porque o jovem se sentia alienado às oportunidades. E na atualid...

O QUE HAVIA NAS MARGENS DO GRANDE RIO ANTES DA INVENÇÃO DE BLUMENAU?

  Figura 1: foto divulgada no perfil @blumenauantiga, no Instagram. Colorida pelo pesquisador com ajuda de inteligência artificial. Atualmente foz do Ribeirão Garcia, ao fundo a "prainha", Ponta Aguda. A descolonização da história é um processo complexo que envolve repensar as narrativas que moldam nossa compreensão do passado, este alerta é descrito na obra Descolonizar: abrindo a história do presente , do português Boaventura de Souza Santos (2022) . Não se trata de apagar a história, mas de questionar as lentes pelas quais a vemos. A história não é uma verdade imutável, mas sim, um diálogo entre múltiplas vozes e perspectivas, como nos ensinou Félix Guattari e Gilles Deleuze (2011). Ao reconhecer que a história é construída socialmente, somos convidados a repensar como as narrativas do passado foram moldadas por poder e privilégio, muitas vezes silenciando ou marginalizando vozes importantes. A descolonização da história é, portanto, um convite para incluir e valori...

A AUTORIA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: UMA REFLEXÃO A PARTIR DE ROLAND BARTHES

       O advento das Inteligências Artificiais Generativas impõe um desafio imediato à a compreensão tradicional de narrativa e criação. Embora já tenha escrito sobre o tema, a reflexão não está finalizada. Para analisar esse fenômeno, recorre agora à tese de Roland Barthes (2004) no texto A Morte do Autor . Ao aplicar lógica de Barthes aos textos produzidos por algoritmos, observa-se um deslocamento radical que é a figura do autor-indivíduo é substituída por uma máquina que processa e replica padrões de aprendizado. Para o pensador francês a autoria, como conceito fundamentado na subjetividade, surge na modernidade e parece encontrar seu esgotamento na pós-modernidade. Nesse cenário, a linguagem torna-se, muitas vezes, "pasteurizada", perdendo o rastro da individualidade em favor de estruturas predefinidas. A IA Gen acentua esse processo ao operar não por autonomia criativa, mas por uma lógica técnica que permanece desconhecida ou mal compreendida pelo grande púb...

A RESPONSABILIDADE DE CATIVAR

 "Você é responsável pelo amor que desperta no outro?"   O Pequeno Príncipe , uma obra de Antoine de Saint-Exupéry, oferece uma profunda reflexão sobre a importância de cuidar do outro e a responsabilidade que carregamos pelos sentimentos que despertamos. Já escrevi o contrário tentando preservar o eu, mas como lembra Aristóteles, vivemos com o outro. A frase “ somos responsáveis por aquilo que cativamos ” resume essa ideia, mostrando que o ato de cativar, de criar laços afetivos, nos coloca numa posição de cuidado e atenção em relação ao outro. É muito triste despertar o amor e não cativar. Chega a uma covardia.   Cativar significa “criar laços”, estabelecendo uma conexão única e singular com o outro. Essa conexão, porém, não pode ser apenas um benefício unilateral. Cativarei o outro para usar dele durante um tempo. Ao cativar alguém, nos tornamos responsáveis por essa pessoa, por seus sentimentos e pelo seu bem-estar. Há uma responsabilidade ética sobre os envolvido...

BACURAU E A VIDA NUA

 Em Agambem, de certa forma, a filosofia da vida é esquadrinhada como uma filosofia que vem. A vida é dada a partir de um projeto político. Há conceitos que envolvem a vida para além dos aspectos biológicos,  o que se considerar o político, como dito, e o teológico. Para o pensador italiano, “a vida nua a que o homem foi reduzido, não exige, nem se adapta a nada: ela própria é a única norma, é absolutamente imante”. Nela, concretiza-se um jogo de produção humana através da oposição homem/animal, eis o que elucida o mecanismo de captura da vida nua pelo biopoder. Nesta perspectiva é operado sobre o ser humano um jogo de exclusão e inclusão. Isolado da vida nua, o ser humano é apenas atual, deixa de vivenciar uma perspectiva virtual, perde sua potência de vir-a-ser, ele apenas é. Aquilo que uma vida pode ser, deixa de existir. Ontem participei de um evento acadêmico, onde assistimos e discutimos Bacurau. Calei-me no debate. Habitava um sentimento difuso, semelhante ao que sent...

FÉLIX GUATTARI ENTREVISTA LULA

  Félix Guattari entrevista Lula, de 1982. O texto foi escrito no contexto pré-eleição de 1982, ainda sob a desgraça da ditadura militar. Nela, o então líder sindical, de uma lucidez fantástica, apontou alguns problemas de ordem social. A desigualdade como produto do capitalismo (ainda não se falava em neoliberalismo); o centralismo do PMDB (hoje MDB) em criar alianças para estender seus tentáculos no poder (o grande problema é um governo para o partido e não para a nação) e como estas alianças poderiam chegar ao PT, e ainda, a ausência de uma reflexão de classe por parte do proletariado.  Um texto distante 37 anos, mas de uma atualidade assustadora. Os mesmos problemas sociais estão alinhados uma política exploratória de hoje. Nesta leitura há um agravante, experimentamos o estado de bem-estar social com o pleno emprego; aumento salarial das classes mais pobres; a passagem da crise de 2008 de maneira sutil, o surgimento de uma classe média com maior poder de compra, a diminui...