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Mostrando postagens com o rótulo Filosofia

A FERIDA ORIGINAL: ROUSSEAU E O PROBLEMA DA PROPRIEDADE PRIVADA NO CAPITALISMO

“O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: isto é meu, e encontrou pessoas bastantes simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estadas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes” (Rouasseu, 1973, p. 265). O texto que refletirá sobre a propriedade privada a partir de Rousseau. Em conjunto com o autor serão utilizados versos da Canção da Terra (2011) da trupê dO Teatro Mágico.  A crítica de Jean-Jacques Rousseau (1712–1778) à propriedade privada permanece como uma das mais contundentes reflexões sobre a origem da desigualdade humana. Seu argumento é direto: a propriedade privada gera a desigualdade. O que outrora era comunal, mediante o cercamento, converteu-se em posse individual. Embora escrita no século XVIII, a análise ressoa com crítica ao capitalismo contemporâneo, no qual a propriedade o eixo...

HÁ UM PENSAMENTO GENUINAMENTE BRASILEIRO?

Neste breve relato pretendo comentar brevemente o livro Crítica da Razão Tupiniquim (1979), escrita pelo filósofo brasileiro e blumenauense Roberto Gomes. Ele ataca ostensivamente a falta de personalidade e originalidade da Filosofia brasileira, que se mantêm ao longo dos tempos, atrelada a modelos educacionais eurocêntricos, fato que reflete a dependência cultural que há muito nos acompanha e nos coloca diante daquele complexo de vira-lata, que é uma herança colonial Roberto Gomes provoca o leitor afirmando que, “por mais abstrato que possa parecer um pensamento, ele sempre traz em si a marca de seu tempo e lugar”. Com isso afirma que toda forma de pensar está vinculada a um contexto sócio-histórico, e que, fora dele, a compreensão torna-se difícil ou até mesmo destituída de sentido. Entre os exemplos utilizados por ele: “como entender Hegel sem a Revolução Francesa?” ou ainda, como entender a educação brasileira sem considerar sua herança colonial? O pensamento é algo original que ca...

PAIS E FILHOS: CARTAS DO MUNDO LÍQUIDO

 "Na sociedade sólida moderna, de produtores e soldados, o papel dos pais consistia em incutir nos filhos, a todo custo, a autodisciplina" (Bauman, 2011, p. 49) Tenho medo de voar. Entrar no avião e passar as horas necessárias até o destino me é sufocante. Diante da necessidade e da prática, o faço, mas evito quando posso. Em uma dessas ocasiões, fui acompanhado pelas 44 cartas do mundo líquido moderno , de Zygmunt Bauman. Não escolhi o polonês para me acalmar, pois ele desperta o desejo contrário. Escolhi a obra porque o livro foi um presente de Dia dos Professores de uma pessoa muito amada. Ao estar com o livro, estava com ela na viagem. Enquanto Bauman refletia sobre as intempéries da contemporaneidade, eu me segurava nas páginas de uma doce lembrança. O livro, como sugerido no título, é composto por cartas escritas por Bauman durante dois anos (2008 e 2009) para leitores italianos. Uma das cartas, intitulada “Pais e Filhos”, chama a atenção. Nela, o autor recupera Michel...

OS FILÓSOFOS TAMBÉM CAGAM

 O ano era 2015. Eu estava na metade do mestrado e viajei para meu primeiro congresso internacional dedicado ao pensador que fundamentava minha pesquisa. Já o estudava havia alguns anos. No evento, estavam reunidos os maiores leitores e comentadores de sua obra — um deleite intelectual. Além deles, guardo na memória conversas de corredor como aquela com Ailton Krenak e um bate-papo no cafezinho com um pensador australiano que discorreu sobre o tédio. Fascinavam-me os títulos das palestras: quanta criatividade! Na última mesa do evento, ocorreu um debate acalorado entre o tradutor oficial do filósofo e o coordenador do congresso. O clima se intensificou. À medida que os argumentos eram apresentados, os corpos se transformavam. A concordância ou discordância acadêmica derivou para um caminho inesperado. Houve momentos de tensão entre os debatedores. Após as exposições, a plateia formulou perguntas incisivas, recebendo respostas áridas... O clima amistoso do evento sucumbiu diante do ...

QUANDO A MORTE NÃO CHOCA

 Certa vez, conversando com um sábio senhor, eu reclamava da ausência das condições sociais em Massaranduba. Aquele senhor, corta abruptamente minha reclamação com um comparativo nada comum. Afirmava ele, “o que esperar de uma cidade onde existem mais prostíbulos que igrejas!”. De momento, pensei no exagero da afirmação. Mas há uma lógica interessante na contraposição de uma zona de meretrício com práticas morais e conveniências de interesses num território.  Na noite de segunda-feira, 22 de abril, Lizete Ribeiro Maas foi assassinada com golpes na cabeça em uma whiskeria, na qual era administradora. O crime aconteceu às margens da SC-108, em Massaranduba, em uma zona de meretrício. A notícia foi veiculada em diversos portais de notícias e canais de televisão aberta. Para além das notícias, não percebi nenhuma comoção, nem sentimento de revolta pela violência de gênero. Pelo contrário, pessoas com gracejos pela situação que envolveu a morte por crime. O que conduziu minha refle...