Você se lembra do momento em que teve a evidência clara de que conseguia ler? Eu me lembro: tinha sete anos, estava em frente à escola, olhei para a fachada de um prédio antigo e lá estava escrito: far-má-cia. Gritei! “Eu li! Eu sei ler!”
A escritora Ângela Kleima (2005) escreve sobre letramento,
um nome oportuno para tecer ideias sobre esse tema. Ela nos faz pensar que o
letramento não se restringe ao ambiente escolar. É sempre importante lembrar
que a educação não se limita ao espaço da escola; portanto, outras práticas
também não podem ser exclusivas dela. Isso nos leva a reconhecer que a escola
possui muitas atribuições, mas funciona como parte de um sistema mais amplo.
Para Kleima, o letramento faz parte do cotidiano e, enquanto
processo, possui múltiplos sentidos. Um dos aspectos destacados pela
pesquisadora é a condição social na qual esse processo está inserido. “Paulo
Freire utilizou o termo alfabetização como um sentido próximo ao que hoje tem o
termo letramento, para designar uma política sociocultural” (Kleima, 2005, p.
19). O conhecimento do mundo da leitura e da escrita não se reduz à
decodificação de signos; envolve um contexto, ou melhor, um pré-texto, um
com-texto e, por extensão, um pós-texto. É o texto com suas nuances, projetadas
a partir de uma condição social. Como lembra Kleima, letrar é comunicar-se em
uma ampla variedade de situações. Assim, o letramento inclui ler e escrever,
mas também outras práticas da vida social.
Escrevo a partir de Kleima (2005) para pensar uma condição
do tempo presente: o letramento digital. Da mesma forma que se pode pensar um
processo de aprendizado gradual dos signos de leitura e escrita no modo
analógico, o presente nos convida a refletir sobre um espaço de significação
para os signos no modo digital. Em regra, os códigos são os mesmos, mas a
lógica de organização deles obedece a outras formas de regramento. Talvez, e
apenas talvez, a inserção do componente curricular “Pensamento Computacional”
traga essa “outra lógica”.
O letramento digital possibilita uma educação voltada ao
ciberespaço. Mas o que isso significa? A inserção no mundo digital possui
diversas camadas, e uma delas, talvez a de maior impacto, são os limites
impostos pelo capitalismo. As formas como as pessoas são ou estão inseridas no
ciberespaço variam enormemente. Tipo de conexão, capacidade de processamento e
dispositivos disponíveis diferem e produzem diferentes modos de acesso e
participação. Diante desse cenário, o letramento digital, para além de uma
educação para o ciberespaço, torna-se também uma oportunidade de inclusão.
Ao pensar o papel da escola, sua multiplicidade enquanto
instituição e os diferentes sentidos do letramento, percebemos que seu lugar no
letramento digital é o da inclusão. Uma prática que compreende o acesso como
ferramenta e que busca produzir um sentimento de pertencimento a esse outro
universo que se constrói, paradoxalmente, no virtual.
O letramento digital pode, em certo grau, legitimar um
capitalismo que vê a escola como espaço de formação de mão de obra para muitos,
enquanto poucos “privilegiados” são educados para o empreendedorismo.
Entretanto, ele pode também constituir um espaço de formação crítica de usuários,
escritores, produtores de saberes e leitores, para a multiplicidade.
Leitura sugerida:
KLEIMA, Ângela B. Preciso “ensinar” o letramento? Não
basta ensinar a ler e a escrever? Campinas: Cefiel / IEL / Unicamp, 2025.
(Linguagem e letramento em foco: linguagem nas séries iniciais).

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