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A ESCOLA COMO TERRITÓRIO DO DIGITAL

 

Longe de ser uma mera habilidade técnica de decodificar letras, o letramento, na visão seminal da linguista Angela Kleiman (Santiago, 1945), é uma prática social profundamente enraizada no contexto. Conforme a autora, trata-se das “práticas sociais de leitura e escrita” que os indivíduos desenvolvem ao se engajarem em atividades reais dentro de suas comunidades. Para Kleiman, não basta saber ler e escrever (a alfabetização); é preciso usar a língua escrita para interagir, resolver problemas, questionar, posicionar-se e exercer a cidadania. Seu trabalho desloca o foco do indivíduo isolado para as interações sociais onde o texto circula, destacando que os usos e significados da escrita variam em cada esfera, do bilhete na geladeira à petição online, do laudo médico ao post em rede social. Portanto, ser letrado implica participar criticamente de um mundo grafocêntrico, onde a escrita é uma ferramenta de poder, inclusão ou exclusão. Essa abordagem foi revolucionária ao demonstrar que o fracasso escolar muitas vezes não é uma deficiência cognitiva do aluno, mas um sintoma de seu distanciamento das práticas de letramento valorizadas pela escola.

Se Angela Kleiman nos ensina que o letramento é uma prática social, o filósofo Pierre Lévy (Tunes, 1954) projeta essa ideia para a era das redes digitais, oferecendo a base para compreendermos o letramento digital não como um manual de operação de softwares, mas como uma nova ecologia do saber. Para Lévy, a revolução digital não é apenas técnica, mas fundamentalmente antropológica: ela cria um "espaço do conhecimento", o ciberespaço, que redefine nossas formas de pensar, comunicar e aprender coletivamente.

A partir de seus conceitos-chave, podemos definir o letramento digital como:

a)    A habilidade de navegar e contribuir para a inteligência coletiva: Lévy vê o ciberespaço como um instrumento que potencializa a inteligência coletiva, uma inteligência distribuída, incessantemente valorizada e coordenada em tempo real. Ser letrado digitalmente, portanto, é saber acessar, filtrar, avaliar e, sobretudo, contribuir para essa rede viva de conhecimentos, entendendo-se como um nó ativo e não um mero consumidor passivo.

b)    A competência para participar de comunidades virtuais e dinâmicas semióticas: O digital cria comunidades de sentido que transcendem fronteiras geográficas. O letramento aqui implica dominar as linguagens híbridas (texto, imagem, hiperlink, código), os protocolos de interação e as etiquetas (netiqueta) próprias de cada comunidade, desde fóruns técnicos até movimentos sociais em rede.

c)    A capacidade de gerenciar a informação em um universo de fluxos contínuos: em oposição ao conhecimento estático do livro, o ciberespaço é um fluxo dinâmico. O letrado digital, na visão derivada de Lévy, é aquele que desenvolve estratégias para mapear, filtrar e sintetizar informações em tempo real, construindo seu próprio percurso de aprendizagem em meio à sobrecarga informacional.

d)    A compreensão da mutação da própria noção de autoridade e verdade: no modelo da árvore do conhecimento (de cima para baixo), a autoridade era clara. No rizoma digital que Lévy ajuda a descrever, o conhecimento é polifônico e descentralizado. Letrar-se digitalmente exige um pensamento crítico aguçado para avaliar fontes, cruzar dados e lidar com a provisoriedade e a construção colaborativa do saber.

A escola contemporânea enfrenta o desafio de integrar letramento tradicional e digital, não como áreas separadas, mas como dimensões complementares de uma mesma competência: a de participar criticamente do mundo por meio de práticas sociais de leitura e escrita. Inspirada por Angela Kleiman, que define letramento como o engajamento em usos reais da escrita em comunidade, a pedagogia precisa criar contextos significativos onde a autoria tenha propósito e audiência. Isso significa substituir exercícios isolados por projetos que vão da análise de um clássico literário à produção de um podcast ou campanha digital, avaliando não só a norma culta, mas a eficácia comunicativa em diferentes suportes. Paralelamente, guiada pelas ideias de Pierre Lévy sobre inteligência coletiva, a escola deve parar de ignorar a internet e começar a ensinar a navegá-la com rigor. Isso envolve mapear fontes na Wikipédia, comparar narrativas em diferentes plataformas e contribuir de forma ética para redes de conhecimento, transformando o aluno de consumidor passivo em produtor consciente no ciberespaço.

Receber um celular na segunda infância não faz da criança um usuário. Conhecer os atalhos para um game, não faz da criança um especialista em jogos. Terceirizar o cuidado com uma tecnologia mobile não torna o adulto um responsável.

A integração escola e letramento digital exige, porém, ir além da técnica e assumir um papel político-pedagógico claro. A escola deve ser o espaço central para problematizar as questões éticas e de poder inerente ao ambiente digital: desde a economia da atenção e os algoritmos que moldam nossas bolhas informativas até a epidemia de desinformação e os impactos na saúde mental. Formar para o letramento digital, nesse sentido, é preparar o cidadão para decodificar as disputas por verdade, compreender os mecanismos de manipulação e exercer sua autoria de forma responsável. A missão da escola, em tempos de tecnologias virtuais, visa promover o domínio das linguagens multimodal e colaborativa, ao mesmo tempo, em que cultiva um pensamento crítico capaz de questionar as próprias estruturas e ferramentas que utiliza. Só assim formaremos indivíduos verdadeiramente letrados, capazes de ler o mundo em suas camadas analógicas e digitais e de escrever, com autonomia e ética, sua participação na sociedade em rede.


Leituras sugeridas:

KLEIMA, Ângela B. (org.). Os Significados do Letramento - uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas, SP, Brasil: Mercado de letras, 1995.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. (Coleção TRANS).

LÉVY, Pierre. O que é virtual? São Paulo: Editor Contexto, 1996.

MEC, Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. 3. ed. Brasília: MEC, 2018. (Texto Preliminar).

Veja também:

Sobre o autor:

Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Doutor em Desenvolvimento Regional. Professor pesquisador ligado a Faculdade SENAC Blumenau e ao Colégio Alpha. Editor do podcast, Tecendo Ideias (Top 100 Education Podcasts). 

 

Comentários

  1. Um texto que nos faz refletir sobre o letramento digital, ele é cada vez mais necessário, não basta subtrair ideias das redes ou repeti- Las como maritacas. Ao navegar por esses caminhos devemos trabalhar com o indivíduo a criticidade a a curadoria dos fatos e suas implicações ao replicadas. A era digital está aí e veio para ficar. Vamos estudar galera e nos inserir nela.

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