| Cercado em Auschwitz, acervo do autor. Foto de 2015. |
Não tenho a pretensão e a ilusão de oferecer uma resposta
definitiva a questão: qual o sentido da vida? Nos últimos dias, estive
em contato com o texto O sentido da vida, de Susan Wolf, leitura
motivada por um projeto de pesquisa no qual estou envolvido e que se dedica a
pensar a morte a partir da filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Enquanto organizava parte da literatura, deparei-me, por indicação do site Crítica,
com o texto de Wolf (2024), que acabou funcionando menos como uma resposta e
mais como um mobilizador de inquietações.
Nas linhas que seguem, não busco comentar o texto de Wolf,
mas explorar algumas reverberações que ele provocou. Quando nos se pergunta
pelo sentido da vida ou, mais amplamente, pelo sentido da própria experiência
de viver, tende-se a fazê-lo a partir de um horizonte místico ou religioso. Esse
enquadramento, historicamente dominante, parece oferecer um terreno seguro,
revelado, inscrito numa ordem transcendental. No entanto, fora desse espaço,
permanece a questão, faz sentido perguntar pelo sentido? Ou ainda, faz sentido atribuir
a outrem o sentido da própria experiência, como se a condição de si pertencesse
apenas a uma força exterior?
A formulação da
questão sobre o sentido da vida abre duas possibilidades aparentemente
excludentes que é o não, ou sim. Se optar pelo não, caberá outra questão. Qual
o lugar da transcendência na vida humana? Uma existência destituída de
transcendência se reduz à sua dimensão biológica, à pura imanência do viver.
Nesse registro, a vida não carrega uma missão, mas apenas um movimento e um
fluxo que se desenrola no tempo presente. A expectativa sobre o itinerário
vivido deixa de ser interpretada como intencionalidade metafísica, sendo compreendida como efeito da inserção temporal. O sentido da vida é aquilo que
ali está.
O presente, tomado como campo de imanência, pode inclusive
dissolver a angústia que nasce da busca por aquilo que nunca está aqui, mas
sempre além. Esse “intangível” é o que alimenta tanto a metafísica quanto a
mística. O sentido, nesse caso, não é nada a ser descoberto, mas algo que se
desfaz como problema. A vida não exige justificativa; ela se basta na
experiência, no acontecimento, no gesto. O acontecimento é a beleza da
existência. O sentido, se existe, é um efeito colateral da própria vivência,
não um fundamento. O sentido, aqui, é substituído pela potência.
Se, por outro lado, a resposta for sim, adentramos o
território da religião, ou, mais amplamente, da transcendência. Nesse registro,
o sentido não é construído, mas revelado; não é produto da experiência, mas
algo que a antecede e a orienta. A vida ganha espessura teleológica: há um
propósito, um caminho, uma narrativa maior na qual o indivíduo se inscreve. Com
isso chega-se à ideia de que exista uma certa vocação para cada experiência. A
vocação é a nulidade do acontecimento.
Essa via oferece, historicamente, um tipo de conforto
existencial. Diante da morte, por exemplo, a transcendência funciona como
amortecedor simbólico, onde ela promete continuidade, redenção, reconciliação e
adia a despedida. A angústia é redistribuída, não eliminada, mas enquadrada em
uma lógica que a torna suportável. O sentido, aqui, é uma promessa e, como toda
promessa, opera no registro da fé de que um dia poderá ser alcançável. Ela está
no campo da utopia.
Duas possibilidades, mas será que elas excluem o seu
contraditório? Não se poderia abordar uma terceira possibilidade? Wolf
considera que o sentido, de certa forma, é introspectivo, e recupera Wiggins
para afirmar que para além do sentido, há o olhar para uma vida satisfatória ou
não... então, não estaria no campo da multiplicidade o pensar sobre o sentido,
ou negá-lo, como uma condição maior? Pensar a multiplicidade como condição de
superação dos ditames das crenças condicionantes que foram as religiosidades ou
as moralidades tradicionais. Pensar na multiplicidade dos sentidos não seria a
ultrapassagem dos limites da finitude?
As questões que emergem desse debate são numerosas e, de
certo modo, inescapáveis. Talvez os próximos capítulos do projeto de pesquisa
sobre a MORTE tragam alguma luz sobre a VIDA. Ou talvez apenas ampliem a
sombra. Em ambos os casos, a reflexão permanece, qual o sentido da vida, se é
que há?
Leitura mobilizadora:
WOLF, Susan. O sentido da vida. Crítica, 2024.
Disponível em: https://criticanarede.com/met_sentidodavida.html.
Acesso em: 30 dez. 2025.
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