PRÉ-TEXTO
O leitor mais novo desconhece o Orkut. Mas ele está acostumado com outro fenômeno, a exposição nas mídias sociais. Pensando neste contexto, recupero um texto que já completou vinte anos para repensar algumas práticas incorporadas no cotidiano. Nem sempre elas podem ser normatizadas e naturalizadas. Em tempos em que a escola insiste em debater Pensamento Computacional, é importante pensar em comportamentos e exposições computacionais (sic!).
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Orkut - é realmente necessário? Foi montado voluntariamente por cidadãos de bem, deslumbrados com a tecnologia, querendo participar sua rotina, sua existência sem novidades, seus gostos, seus filhos, seus pais, a todo o mundo. Todo o mundo mesmo. O ORKUT apareceu como uma forma de reaver amigos, saber notícias de quem estava distante e mandar recados, e hoje está sendo utilizado com o propósito para que, creio, é o seu maior trunfo, obtenção de informações sobre uma classe privilegiada da população brasileira.
Mas por que será que só no Brasil teve a repercussão que teve? Outras culturas hesitam em participar sua vida e dados de intimidade, de forma tão irresponsável e leviana.
Por acaso você já recebeu um telefonema que informava que seus filhos estavam sendo sequestrados? Sua mãe idosa já foi seguida por uma quadrilha de malandros? Já te abordaram num barzinho dizendo que te conhecia faz tempo? Já foi para festas armadas para reencontrar os amigos de 30 anos atrás e não viu ninguém? Pois é. Ta tudo lá. No ORKUT.
Com cinco minutos de navegação sei que você tem dois filhos, tem um namorado, estuda no colégio tal, frequenta cinemas. E o melhor de tudo com uma foto na mão identifico seu rosto em meio a multidões, na porta do seu trabalho, no meio da rua. Afinal, já sei onde você está. É só ler os seus recadinhos.
Faço um pedido: quem quiser se expor assim, faça-o conscientemente e depois não lamente, nem se desespere, caso seja vítima de uma armação. Poupe seus filhos, poupe sua vida íntima. O bandido te ligou para te extorquir dinheiro também porque você deixou. A foto dos meninos estava lá. Teu local de trabalho tava lá. A foto no hotel 5 estrelas na praia tava lá. A foto da moto que está na garagem estava lá. Realmente, somos um povo muito inocente e deslumbrado. Por enquanto, temos ouvido falar de ameaças a crianças e idosos. Até que um dia a ameaça será fato. Tarde demais. Se você me entendeu, ótimo!
Reveja sua participação no ORKUT ou ao menos suprima as fotos e imagens de seus filhos menores e parentes que não merecem passar por situações de risco que você os coloca.
Se achar que não tenho razão, deve se achar invulnerável. Informo que pessoas muito próximas a mim e queridas, já passaram por dramas gratuitos, sem perceber que foram vítimas da própria imprudência.
A falta de malícia para a vida nos induz a correr riscos desnecessários. Não só de Orkut vive a maioria dos internautas. Temos uma infinidade de portas abertas e que por um descuido colocamos uma informação que pode nos prejudicar. Não conhecemos a pessoa ou as pessoas que estão do outro lado da rede. O papo pode ser ótimo, legal, mas disponibilizar informações a nosso respeito pode se tornar perigoso ou desagradável.
Portanto, cuidado ao colocar certas informações na Internet.
Coluna do Jornal < O Globo >, 29 de junho de 2006.
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PÓS-TEXTO
As mídias mudaram. O tempo mudou. Os
exemplos talvez já não se encaixem tão bem. Ainda assim, o problema continua
aparecendo. Uma amiga comentou comigo outro dia que “não precisamos nos
explicar demais ou comentar tudo. As pessoas não precisam saber tanto quanto
mostramos. Quem fala menos, se desgasta menos”. Além da questão da segurança,
existe algo ainda mais valioso após vinte anos: cultivar uma certa “paz
interior” diante de tanta gente que encontrou nas redes sociais um megafone
para opiniões insensatas e desequilibradas.

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