Neste breve relato pretendo comentar brevemente o livro Crítica da Razão Tupiniquim (1979), escrita pelo filósofo brasileiro e blumenauense Roberto Gomes. Ele ataca ostensivamente a falta de personalidade e originalidade da Filosofia brasileira, que se mantêm ao longo dos tempos, atrelada a modelos educacionais eurocêntricos, fato que reflete a dependência cultural que há muito nos acompanha e nos coloca diante daquele complexo de vira-lata, que é uma herança colonial
Roberto Gomes provoca o leitor afirmando que, “por mais abstrato que possa parecer um pensamento, ele sempre traz em si a marca de seu tempo e lugar”. Com isso afirma que toda forma de pensar está vinculada a um contexto sócio-histórico, e que, fora dele, a compreensão torna-se difícil ou até mesmo destituída de sentido. Entre os exemplos utilizados por ele: “como entender Hegel sem a Revolução Francesa?” ou ainda, como entender a educação brasileira sem considerar sua herança colonial?
O pensamento é algo original que carrega sua origem territorial, e por isso o autor critica o estrangeirismo filosófico, visto como uma forma de pensamento que nos é, ao menos em parte, estranha. Daí decorre seu apelo à filosofia brasileira: trata-se de valorizar aquilo que está entre nós, mas sem perder de vista suas raízes, para que não se transforme em um vazio existencial. Valorizar o que é territorialmente brasileiro. Então, há um pensamento genuinamente brasileiro?
Da mesma forma, a reflexão filosófica só alcança originalidade quando se descobre a partir de uma posição situada. No caso da filosofia brasileira, isso significa que ela “só terá condições de originalidade e existencial quando se descobrir no Brasil”. Trata-se de um problema de identidade. Para enfrentá-lo, é preciso olhar para nossa realidade e permitir que o problema apareça, assumindo-o como nosso. Roberto Gomes afirma que “a filosofia é uma razão que se expressa”, e aqui a palavra razão aparece carregada de historicidade. Por exemplo, ao conhecer a vida dos habitantes de Mileto no século VI a.C., por exemplo, não é difícil compreender por que Tales conclui que a água é o princípio originário de todas as coisas. A geografia de Mileto nos leva a tal compreensão de sua ideia por conta da sua origem territorial.
Ao analisar a originalidade do pensamento brasileiro, surge um problema quanto à sua autenticidade. Existe, de fato, um pensamento originário brasileiro capaz de fundamentar uma filosofia e uma sociologia genuinamente brasileira? A história do Brasil revela uma formação marcada pela diversidade: portugueses, africanos, povos ameríndios, além de sucessivas ondas de imigrantes europeus e asiáticos. Diante dessa pluralidade, podemos falar em um pensamento originário brasileiro ou a formação seguiu uma tradição europeia? Se não há uma originalidade poderia haver um pensamento originário, e, portanto, uma filosofia autenticamente brasileira nos termos propostos por Gomes? Afinal, trata-se de um país composto por múltiplas etnias, culturas e modos de vida.
OBRA ANALISADA
GOMES, Roberto. A crítica da razão tupiniquim. 3. ed. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1979. (Coleção Didática). v. 6
Resenha escrita em 2005 e apresentado ao elemento curricular de História da Filosofia Latino-americana do curso de graduação em Filosofia no Centro Universitário de Brusque, e revisitado em 25 de fevereiro de 2026.
Comentários
Postar um comentário