Pular para o conteúdo principal

ESCREVER É UM DELÍRIO

 Versão 1

Na história, em diferentes níveis, sempre se aprendeu primeiro a falar e depois a escrever. O falar nasce de uma certa espontaneidade. A criança, sem muita vergonha ou neurose, inventa palavras, cria contextos e, com a imaginação, amplia o mundo. “Eu consigo passar num segundo, giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo”, já nos ensinou Toquinho (1983). As primeiras palavras de uma criança são festejadas e sua imaginação não se importa com os limites impostos. Ela fala, fala e fala... as regras do falar da criança são construídas e reconstruídas em cada frase. Não há uma má-gramática do falar, apenas a vontade. E quando a criança chega à escola, da fala surge a escrita. Há um corte. 

A escrita, por sua vez, assume outra característica, diante das regras e das gramáticas, transforma-se em algo talvez menos divertido que o falar. Para pensar essa relação com a escrita, recorro a Gilles Deleuze (1997). Para o pensador francês, “escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se e que extravasa qualquer matéria viva ou vívida” (Deleuze, 1997, p. 11). Escrever possibilita visualizar um caminho, uma forma de ir além daquilo que se apresenta como regra. Escrever é deixar o lápis atuar como uma bailarina sobre o palco, e as palavras, no papel, comporem uma dança única. Escrever é sempre potência de algo. No movimento de ir e vir, desvela-se a identidade de uma nova ideia que surge diante de si mesmo e, quando apresentada no palco das páginas, diante do outro.

Ao mesmo tempo em que essa dança é cortada por tantas regras da gramática ou pela má-gramática da vida, ela nos põe em pausa (O Teatro Mágico, 2011). A escrita potencializa a libertação de si e de outrem permitindo um diálogo imaginário. As incertezas que habitam cada um se transformam em palavras e, quando combinadas, tecem novos sujeitos e outros predicados. Escrever é bailar em direção à liberdade. Diante de tantas possibilidades, Deleuze nos ajuda a pensar que “não se escreve com as próprias neuroses. O mundo é o conjunto dos sintomas cuja doença se confunde com o homem” (Deleuze, 1997, p. 13). Se não se escreve com as neuroses, escreve-se com o quê? Com a esperança.

A literatura, para Deleuze, é um empreendimento de saúde. A saúde é marca da vida, daquilo que está latente em nós e que grita para sair em forma de texto. Grita para dizer que a vida, como vitória, aí está. A doença se faz presente, mas não domina o mundo; contudo, pode impedir o devir e o acontecimento, desmarcando a vida. A esperança é a potência que intensifica a vida daquele que baila sobre a própria existência. Escrever é superar. O que se diz, naquilo que está dito, revela muito mais sobre aquele que lê do que sobre aquele que escreveu. 

Referências

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34, 1997. (Coleção TRANS).

O TEATRO MÁGICO. Mágramática. Canal Putrefagia, 2011. 1 recurso online, recorte do show Recombinando Atos. Disponível em: https://youtu.be/_893g-2lUII?si=h6P6sMhxd-_M-oWN. Acesso em: 17 mar. 2026.

TOQUINHO. Aquarela. Universal Music, 1983. 1 recurso online. Disponível em: https://open.spotify.com/intl-pt/track/4LhxdvP3lfgH3ciOyO1BX1?si=5ecf8c11f09648a2. Acesso em: 17 mar. 2026.


Sobre o autor:

Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Doutor em Desenvolvimento Regional; Mestre em Educação; filósofo e geógrafo.

MyOrcId: https://orcid.org/0000-0001-8631-5270




Comentários