E a vida, o que é? Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão? Ê-ô
(O que é, o que é? Letra de Gonzaguinha)
A vida é a simples batida do coração ou ela é força motriz que dá
sentido ao coração? Ou haverá outras reflexões que nossa vã filosofia supõe
pensar?
Para pensar a questão da vida, recupero conceitos de Gilles
Deleuze apresentados na obra Diferença e Repetição (2018). Nela, o autor
apresenta o conceito de acontecimento. Acredito que o acontecimento seja
fundamental para pensar a vida. Para Deleuze o acontecimento possui um sentido
diferente daquele empregado pelo senso-comum, o acontecimento não é um fato. O
fato pertence ao nível empírico, àquilo que se inscreve na imediaticidade do
tempo cronológico. Já o acontecimento diz respeito a algo que se torna
significativo, marcando de forma singular a experiência e vivenciado em “outro
tempo”, o que o grego antigo chamou de aíon.
Há diferenças entre chrónos (cronológico) e aíon. A
distinção entre chrónos e aión ocupa um lugar central na reflexão grega antiga
sobre a natureza do tempo. Chrónos designa o tempo sequencial, mensurável e
dividido em unidades, é o tempo que flui, que pode ser contado e que organiza
os eventos em antes e depois, o tempo do relógio, aquele que foi capturado pelo
capitalismo. A ideia aión remete a uma dimensão qualitativa e existencial do
tempo, frequentemente associada à duração vital, ao “tempo próprio” de um ser
ou de uma era.
Em termos etimológicos, chrónos está ligado à ideia de
sucessão e desgaste, o tempo que consome e desgasta; já aión deriva de uma raiz
que expressa “vida”, “vigor” ou “período vital”, indicando uma continuidade que
não se mede por relógios, mas por intensidade e sentido. Assim, enquanto
chrónos estrutura o mundo físico e histórico, aión expressa o horizonte simbólico
e ontológico no qual a experiência humana do tempo ganha profundidade e
permanência.
O acontecimento designa uma experiência singular de sentido,
que se dá no plano da imanência e não como realização de um fim transcendente
ou de uma missão previamente dada. O acontecimento não é vocação, destino ou
condição imposta pelo universo. O acontecimento é do tempo aión: um tempo que
não se mede pela pressa do relógio. O acontecimento indica um tempo de valor, o
suficiente para viver uma experiência imanente, aquela que marca a batida do
coração para sempre, torna-se memória, e por sinal, inesquecível.
Um exemplo para pensar o acontecimento. Um beijo apaixonado
talvez seja a melhor ação para pensa-lo. Ele não se reduz ao encontro de dois
lábios por alguns instantes. Ele é a manifestação do tempo aión, no qual o
encontro é marcado pela expressão da diferença. O beijo apaixonado não repete o
que já foi dado; ele introduz uma variação, uma ruptura, algo que retira a
experiência da banalidade da repetição mecânica. Cada beijo é novo em sua
realização. Ele é novo e ao mesmo tempo único. Ele é o acontecimento porque não
está preso ao tempo cronológico.
O acontecimento, enquanto momento da vida, é uma experiência
qualitativa do tempo, um produtor de sentido, não de um sentido prévio, mas da
revelação de um significado que emerge no próprio ato de acontecer. O
acontecimento é a potência do viver enquanto diferença, uma intensidade que
irrompe no presente e confere espessura à experiência, sem depender de um
sentido transcendente ou de uma finalidade exterior à vida.
Dizer a alguém “você é o meu acontecimento” é um gesto de
ternura, equivalente a dizer “eu te amo”. Significa reconhecer que o encontro com
o outro possui uma importância tal que sua presença não é algo porque
simplesmente se passa, como tantos outros fatos da vida. “Você é o meu
acontecimento” é a saída do espaço cronológico para a vivência de uma dimensão
do aión, uma dimensão qualitativa do ser e do estar. Há encontros na vida que
não se encaixam numa cronologia de fatos, esses são os acontecimentos, aqueles
que são gravados na memória.
Ao mesmo tempo, embora os acontecimentos tragam à vida uma
experiência de imanência e de encontro, é preciso reconhecer que há os fatos.
Há inúmeros momentos que são apenas passagens, que se perdem no tempo e espaço,
sem guardar sequer memória. Para pensar uma saída para essa condição, Deleuze
recupera a ideia de conatus, apresentada por Spinoza: “O conatus é o esforço
para experimentar alegria, ampliar a potência de agir, imaginar e encontrar o
que é causa de alegria, o que mantém e favorece essa causa; mas é também
esforço para exorcizar a tristeza, imaginar e encontrar o que destrói a causa
de tristeza; quanto maior é a alegria de que somos afetados, tanto maior é a
perfeição” (Deleuze, 2018, p. 106).
Ao retirar a transcendência da vida e apresentar a imanência
como condição, Deleuze nos faz pensar a vida como potência a partir do conatus,
entendido como o esforço pelo qual cada coisa persevera em seu ser. Trata-se da
tendência imanente de todo ser a existir, manter-se e expandir sua potência de
agir. É aquilo que mobiliza uma força capaz de fazer os fatos ganharem um
sentido que ultrapassa o mero instante e seu desaparecimento. O conatus não
transforma o fato em acontecimento, mas confere um grau de potência ao modo de
agir e de viver na multiplicidade que cerca cada ser. Em Spinoza, o conatus é a
essência atual do ser; em Deleuze, podemos lê-lo como a possibilidade da
potência antes do atual, pois a vida se realiza nas diferentes potências.
Assim, a partir da leitura do meu amigo Gilles Deleuze, pode-se
afirmar que a vida não é uma simples batida do coração, tampouco a força motriz
que dá sentido ao coração. A vida, e ela é bonita, é o somatório de poucos
acontecimentos e muitos fatos, numa grande potência do vir a ser.
OBRA CITADA
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 2018.
MÚSICA CITADA
GONZAGUINHA. O que é, o que é?.
Intérprete: Gonzaguinha. Caminhos do Coração. Rio de Janeiro: EMI-Odeon,
1982
Sobre o autor:
Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Doutor em Desenvolvimento Regional; Mestre em Educação; filósofo e geógrafo.
MyOrcId: https://orcid.org/0000-0001-8631-5270

Comentários
Postar um comentário