O advento das Inteligências Artificiais Generativas impõe um desafio imediato à a compreensão tradicional de narrativa e criação. Embora já tenha escrito sobre o tema, a reflexão não está finalizada. Para analisar esse fenômeno, recorre agora à tese de Roland Barthes (2004) no texto A Morte do Autor. Ao aplicar lógica de Barthes aos textos produzidos por algoritmos, observa-se um deslocamento radical que é a figura do autor-indivíduo é substituída por uma máquina que processa e replica padrões de aprendizado.
Para o pensador francês a autoria, como conceito fundamentado na subjetividade, surge na modernidade e parece encontrar seu esgotamento na pós-modernidade. Nesse cenário, a linguagem torna-se, muitas vezes, "pasteurizada", perdendo o rastro da individualidade em favor de estruturas predefinidas. A IA Gen acentua esse processo ao operar não por autonomia criativa, mas por uma lógica técnica que permanece desconhecida ou mal compreendida pelo grande público. Quais são os verdadeiros critérios que alimentaram os bancos de dados de uma ferramenta de IA?
A grande crítica que emerge dessa interseção entre tecnologia e filosofia reside na natureza do conteúdo gerado. Sendo a IA um sistema essencialmente generativo, ou seja, fundamentado na recombinação de dados preexistentes, questiona-se a possibilidade de uma verdadeira “novidade”. Para Deleuze e Guattari (2010) o avanço do pensar se faz quando a reflexão é inventiva. Se a inventividade depende do inédito, a IA correria o risco de decretar o fim da filosofia e da criação original, limitando-se a reciclar o que já foi dito.
Dessa forma, somos levados a refletir sobre o impacto da automação na vivência humana. Se a produção textual se torna um processo mecânico de processamento de dados, a própria experiência da escrita e da leitura pode ser esvaziada de sentido. Sem o fator surpresa ou o erro inerente à condição humana, ou a inventividade, a narrativa corre o risco de se tornar meramente funcional.
Se a Inteligência Artificial é capaz de processar o conhecimento humano em segundos para nos entregar o texto “perfeito”, por que será que ainda que ele ainda é apenas um texto genérico, sem traços de subjetividade e inventividade?
Obras citadas
BARTHES, Roland. A morte do autor. In: O RUMOR DA LÍNGUA. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? 3. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.
Imagem: @sinttecsindicatotiuberlandia
Textos já publicados sobre o tema
MELCHIORETTO, Albio Fabian; ARAUJO, Jessica. Inteligência artificial e experiência: uma possível encruzilhada. Revista Docência e Cibercultura, [s. l.], v. 9, n. 1, p. 1–14, 2025. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/article/view/83034. Acesso em: 18 ago. 2025.
MELCHIORETTO, Albio Fabian. A quem pertence a autoria de um texto gerado por inteligência artificial? Um diálogo quase possível com Hans Jonas. In: TECNOLOGIAS DIGITAIS EM DEBATE: SUPERANDO LIMITES, EXPANDIDO POSSIBILIDADES. Curitiba: Editora Bagai, 2025. p. 23–34. Disponível em https://drive.google.com/file/d/1dUGSZqNTosryRvWOusQFMGEhmgfD8r0x/view?usp=drive_link
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