| Mataram uns 12 milhões de indígenas, contabiliza Las Casas - RED |
A “era dos descobrimentos”, no período da América Colonial, foi muitas vezes envolta por narrativas românticas sobra a exploração da América. O frei dominicano Bartolomé de Las Casas, ou Bartolomeu, na obra O paraíso destruído (2001) revelou uma tapeçaria de sangue. Ele documenta um “paraíso terrestre” transformado em “abismo” de “opressão abominável”, praticado pelo europeu que chegou com sede insaciável de ouro. A revelação mais perturbadora não é apenas a escala da carnificina, mas a identidade da própria testemunha.
Antes
de sua conversão, por
volta do ano de
1502 Las Casas
participou da mesma “história sangrenta” que mais tarde
condenaria. Antes
de tornar-se religioso ele
chegou as
Ilhas
de Cuba e
Hispaniola, como conquistador. Próximo
a vila de Caonao ordenou
a decapitação de sete mil índios. Sua transformação de
perpetrador de massacres em “protetor
dos índios”
começou com um sermão de Montesinos em 1511. A
figura do Las Casas transformou-se (converteu-se, para usar um termo
cristão) de um caçador de índios para uma um protetor de almas.
Las Casas
relata a sabedoria estratégica do Cacique Harthuey, que fugiu de
Hispaniola para Cuba para alertar sobre a tempestade que se
aproximava. Harthuey entendeu que os invasores eram movidos por um
“Deus” que carregavam num cofre. Ele reuniu seu povo, apontando
para um baú de ouro e joias como a verdadeira divindade dos
conquistadores.
Para apaziguar este “Deus”, os indígenas realizavam Areytos –
danças sagradas – na esperança de saciar a sua fome pelo metal.
No entanto, Harthuey chegou a uma conclusão assustadoramente
racional: manter o ouro custar-lhe-ias a vida. Ele ordenou que seu
povo jogasse o "Deus dos espanhóis" no rio para garantir
sua segurança. “Ele lhes disse: 'Não é só por causa disso
[crueldade], mas também porque eles têm um Deus que adoram...
olhando para um baú cheio de ouro e jóias ao lado dele, ele disse:
Aqui está o Deus dos espanhóis...'”
O
frei dominicano descreve um cenário de terror e manipulação sobre
a população local. Se
os aldeões não se rendessem imediatamente, declaravam
uma “guerra justa” de “fogo e espada”. Aqueles que não foram
queimados vivos foram “marcados com ferro quente”, marcados como
gado para significar o seu novo estatuto de escravos. Las Casas
denuncia
desta prática como uma distorção demoníaca do Evangelho, onde as
vítimas eram legalmente condenadas antes de acordarem com
a lógica do dominador. Nunca houve acordo, sempre foi um processo
violento.
As
crueldades foram múltiplas. Las
Casas detalha os "gradis" (grelhadores) onde os senhores
eram assados lentamente em pequenas fogueiras. Diz
o frei, "eu
vi... soldados arrancando crianças a
força dos seios de
suas mães e batendo suas cabeças contra pedras... eles usaram da
violência para
extirpar aquelas nações miseráveis: guerra injusta, cruel,
tirânica e sangrenta."
O total fracasso moral da
missão espanhola é imortalizado nos momentos finais do Cacique
Harthuey. Enquanto estava amarrado à estaca, Harthuey foi abordado
por um monge franciscano que lhe ofereceu o caminho para o descanso
eterno. O monge prometeu que através da fé cristã, Harthuey
poderia entrar no céu e escapar do tormento perpétuo.
Após
um “momento de reflexão” Harthuey perguntou se os espanhóis
também ocupavam este Céu. Quando o monge respondeu que os “bons”
sim, o Cacique fez uma rejeição racional e filosófica à sua
moralidade. Ele escolheu o Inferno, afirmando que preferia sofrer o
fogo eterno do que arriscar a companhia de tais "pessoas
cruéis". Há uma
marca que vai além da física, é a marca da destruição da
comundiade que vivia na esperança. As pessoas que Harthuey deseja
fugir eram as mesmas que aplicaram uma lógica do extermínio. Mas o
fim da colonização histórica não cessou a lógica do extermínio,
ou como diria Mbembe (2016), a lógica da necropolítica. A América
Central ainda vive uma política da morte, afinal, as “espadas e
cães” do século XVI evoluíram para rifles automáticos e
helicópteros militares, como também:
A ganância dos conquistadores reflete-se hoje nas “trinta e duas famílias” que governam El Salvador.
A United Fruit Company controla três milhões de acres na Guatemala, subempregando 90.000 camponeses indígenas.
Nos Estados Unidos o extremista Donald Trump avançou na perseguição aos latinos e promoveu a construção de um muro que representa uma lógica de colônia sobre o povo latino.
Os textos de Las Casas foram os primeiros a dar voz ao povo ameríndio. mas a sua relevância permanece cáustica. A mudança da palavra “conquista” para “descoberta” em 1556 não pôs fim às “estratégias geopolíticas de extermínio”. Limitou-se a profissionalizar a violência, envolvendo a antiga ganância na linguagem sofisticada da estratégia moderna. O capitalismo parasitária que molda narrativas. E no tempo presente o mecanismo de extermínio não cessou; apenas atingiu uma perfeição mais letal.
SOBRE O AUTOR
Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias (Top 100 Education Podcasts).
DECLARAÇÃO
Declaro que utilizei ferramentas de Inteligência Artificial generativa exclusivamente para apoio no processo de ideação, na revisão textual e organização da escrita deste documento. Todo o conteúdo analítico é de minha autoria e responsabilidade. Para tal foi utilizado o modo mapa mental do Google Notebook LM e o Copilot da Microsoft Office 365 para a revisão e organização do texto.
LITERATURA DE APOIO
CASAS, Bartolomé de Las. Brevíssima relação da destruição das Índias: O paraíso destruído: a sangrenta história da conquista da América. Porto Alegre: LP&M, 2001. (Coleção L&PM Pocket).
MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & Ensaio: revista do PPGAV/EBA/UFRJ, Rio de Janeiro, n. 32, p. 123–151, 2016. Disponível em: Acesso em: 13 jul. 2020.
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