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UMA IMAGEM CRIADA POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PODE SE TORNAR UMA OBRA DE ARTE?

 


Em outubro de 2018, o mercado de arte tradicional experimentou um tremor ontológico. Na Christie’s, o coletivo parisiense Obvious leiloou a obra "Edmond de Belamy", pertencente à série "La Famille de Belamy". O martelo bateu em impressionantes 432 mil dólares, mas o verdadeiro assombro não residia na cifra, e sim na autoria. A imagem foi gerada por um algoritmo de Inteligência Artificial (IA).

A venda provocou debates pelo mundo inteiro. Estaríamos diante de um novo artista ou apenas de uma ferramenta sofisticada? O debate, que ocupou do The Guardian ao portal Tilt, questiona se um código treinado pode ser elevado ao status de criador. O jornal inglês The Guardian questinou-se, o evento não foi apenas um marco comercial, mas o sintoma de uma transição profunda no conceito de autoria e criatividade.

É um equívoco considerar a tecnologia uma intrusa recente no ateliê. A arte visual sempre foi indissociável da téchne, a habilidade técnica que transforma a matéria. No Renascimento, essa união atingiu seu ápice com Filippo Brunelleschi (1377-1446), que utilizou cálculos matemáticos para inventar a perspectiva, alterando permanentemente a nossa percepção espacial.

A evolução dos meios de expressão dita a evolução da estética. O desenvolvimento da pintura a óleo por Jan van Eyck no século XV, por exemplo, foi uma revolução tecnológica fundamental. Ao contrário da têmpera, o óleo permitia tempos de secagem lentos e misturas cromáticas que possibilitavam transições suaves e um realismo inédito. A tecnologia, portanto, não apenas auxiliou a expressão, como também ela a definiu. Tecnologia não é apenas o digital e o virtual.

O que nos diferencia, enquanto animal simbólico, é a capacidade de criar formas que dão sentido ao mundo. Historicamente, usamos a tecnologia como um instrumento, e agora uma extensão do corpo, como o pincel ou o cinzel o são. Contudo, a IA e o Deep Learning propõem um salto, a tecnologia agora atua no campo próximo da cognição.

Diferente de uma câmera, que opera sob o controle absoluto do olhar humano, a máquina de IA interfere propositalmente no processo de concepção criativa. Ao imitar redes neurais, ela "aprende" e sugere resultados que escapam à previsão total do artista. Não é mais apenas uma ferramenta que executa; é um sistema que processa a subjetividade humana e devolve uma interferência cognitiva no ato de criar. Mas não é humano e sequer é subjetivo. Então, surge outra questão: há arte sem humanos?

O coletivo Obvious utilizou um método onde a máquina havia autonomia parcial e a inteligência humana permaneceu como o ponto de ancoragem. O processo é essencialmente curatorial. Nem toda aplicação de IA resulta em “arte” no sentido profundo. O projeto "The Next Rembrandt", em 2016, é um exemplo de fetiche tecnológico. Ao analisar 346 obras do mestre holandês para criar uma imagem “perfeita”, ele atua como um demonstrador técnico, mas carece de uma narrativa humana que o situe no circuito cultural. É uma imitação do passado, desprovida de porvir. Sem potência.

Em contraste, o trabalho de Mario Klingemann, como em "The Butcher’s Son", busca explorar novas fronteiras do sensível. Klingemann utiliza a IA para "desprogramar" a função original da técnica, buscando o supérfluo, que é o conceito de Ortega y Gasset que define a vida humana como algo que ultrapassa as necessidades biológicas. Enquanto o projeto Rembrandt busca a simulação, Klingemann busca a poética da desconstrução, usando o código para investigar o mistério e a deformação, dialogando com a história da arte de forma crítica.

Para Hannah Arendt, a arte é o que garante a eternidade da humanidade no mundo das coisas tangíveis. Enquanto objetos úteis, como uma cadeira, sofrem o desgaste do consumo, a obra de arte é o objeto mais intensamente mundano porque existe para permanecer. A reificação é o processo de transformar o pensamento em algo sólido que sobrevive às gerações. Hannah Arendt afirmou que a durabilidade das obras de arte é de uma ordem superior àquela de que todas as coisas precisam para existir... é como se a estabilidade humana se tornasse transparente na permanência da arte (Hannah Arendt, 2015).

Últimas palavras

A grande questão da arte algorítmica é se ela pode oferecer a mundanidade necessária para o diálogo humano. Sem a atribuição de valor linguístico e simbólico, a imagem gerada por IA corre o risco de ser um objeto efêmero de consumo técnico. A arte exige que a obra seja um lar para o pensamento, uma morada não mortal para seres mortais.

A Inteligência Artificial não substitui o artista; ela se estabelece como um colaborador cognitivo ou um “pincel de código”. Ela nos força a repensar o que é essencialmente humano: a capacidade de “desprogramar” a técnica para criar o supérfluo necessário.

Talvez o verdadeiro valor da arte algorítmica não esteja no resultado visual, mas na forma como ela nos obriga a reafirmar nossa própria capacidade de criar símbolos e garantir a permanência do mundo em meio à aceleração digital.


Obras citadas

ARENDT, Hannah. A condição humana. 13.a Edição. Barueri: Forense Editora, 2015

Sobre o autor

Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Filósofo. Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias (abre.ai/tecendoideias) e escritor da newsletter Futebol Catarinense (albiofabianmelchioretto.substack.com).

orcid.org/0000-0001-8631-5270

Declaração de uso de Inteligência Artificial

Declaro que utilizei ferramentas de Inteligência Artificial generativa exclusivamente para apoio na revisão textual deste documento. Todo o conteúdo analítico é de minha autoria e responsabilidade. Para tal foi utilizado o GEM Revisor do Gemini para a revisão do texto.

A imagem deste post foi criada a partir do Copilot, logado com a conta Microsoft Office 365, com o seguinte prompt: crie uma imagem que seja uma obra de arte. Que ela seja criativa e que me surpreenda.

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