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A FERIDA ORIGINAL: ROUSSEAU E O PROBLEMA DA PROPRIEDADE PRIVADA NO CAPITALISMO

“O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer: isto é meu, e encontrou pessoas bastantes simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estadas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes” (Rouasseu, 1973, p. 265). O texto que refletirá sobre a propriedade privada a partir de Rousseau. Em conjunto com o autor serão utilizados versos da Canção da Terra (2011) da trupê dO Teatro Mágico. 

A crítica de Jean-Jacques Rousseau (1712–1778) à propriedade privada permanece como uma das mais contundentes reflexões sobre a origem da desigualdade humana. Seu argumento é direto: a propriedade privada gera a desigualdade. O que outrora era comunal, mediante o cercamento, converteu-se em posse individual. Embora escrita no século XVIII, a análise ressoa com crítica ao capitalismo contemporâneo, no qual a propriedade o eixo organizador de toda a vida social. O capitalismo elevou a propriedade ao estatuto de fundamento moral, político e econômico da sociedade. A reflexão de Rousseau convida a olhar para esse fundamento como uma construção histórica que, longe de promover liberdade, inaugura dependência, desigualdade e alienação, aqui usada num contexto diferente daquele que foi empregada por Karl Marx (2009).

Para Rousseau a sociedade civil nasce quando um indivíduo cerca um pedaço de terra e declara: “Isto é meu” (Rousseau, 1973, p. 265), e encontra outros dispostos a acreditar, embora a traduza fale em pessoas simples, poder-se-ia chamá-las de suficientemente tolas. Essa cena inaugural não é apenas uma anedota filosófica; ela revela a natureza artificial da propriedade. A quem foi conferida a autoridade para legitimar a posse sobre a propriedade? No tempo presente a legitimação da possse é assegurada pelo Estado. Nada na natureza indica que um fragmento do mundo pertença a alguém. A terra não fala, não assina contratos, não reconhece fronteiras. A propriedade é uma ficção útil — útil para alguns, devastadora para outros. 

Madre terra nossa esperança
Onde a vida dá seus frutos
O teu filho vem cantar
Ser e ter o sonho por inteiro
Ser sem-terra, ser guerreiro
Com a missão de semear
À terra, terra
(Canção da Terra, 2011)

No capitalismo a propriedade transformou a ficção em lei universal. O que Rousseau via como o início da desigualdade transformou-se, na modernidade, em princípio absoluto: possuir é existir; não possuir é desaparecer. O indivíduo trabalha para possuir bens exclusivos. O capitalista é um colecionador de propriedades. A desigualdade, por sua vez, no capitalismo é estrutural e permanente. A mediada que um sujeito adquire um bem, ele priva outrem de adquiri-lo. A propriedade deixa de ser apenas um direito e converte-se em critério de humanidade. Quem não a possui é tratado como excedente, descartável e invisível. “As novas luzes que resultaram desse desenvolvimento aumentam a sua superioridade os outros animais, fazendo-lhe conhecê-la” (Rousseau, 1973, p. 266). Primeiro com os animais, e na sequência entre os próprios humanos. No tempo presente justifica-se a guerra para romper o acesso privado a alguns bens. Acesso ao petróleo, à terras raras, a minerais, entre tantos outros interesses Em nome da propriedade privada, o povo Curdo tornou-se apátrida.

Romper as cercas da ignorância
Que produz a intolerância
Terra é de quem plantar
À terra, terra
(Canção da Terra, 2011)

A relação primitiva do ser humano com a terra era de uso e não de posse. O ser humano primitivo se relaciona com o ambiente como parte dele, não como seu senhor. Algo presente na epistemologia ameríndia. “Para além de onde cada um de nós nasce — um sítio, uma aldeia, uma comunidade, uma cidade —, estamos todos instalados num organismo maior que é a Terra. Por isso dizemos que somos filhos da terra. Essa Mãe constitui a primeira camada, o útero da experiência da consciência, que não é aplicada nem utilitária” (Krenak, 2023, p. 52).

No entanto, o modo capitalista de pensar o mundo rompe com essa continuidade: transformar a terra em objeto, o humano em proprietário e o mundo em recurso. A terra deixa de ser espaço de vida e torna-se mercadoria, investimento e ativo financeiro. O valor de uso é substituído pelo valor financeiro de troca. A desnaturalização que Rousseau identificaria como início da corrupção moral tornou-se, no capitalismo, uma lógica total onde a natureza é reduzida a capital natural, o trabalho a capital humano e a moradia a ativo imobiliário.

A terra, que deveria ser o fundamento comum da existência, converteu-se em instrumento de exclusão. Esqueceu-se que os povos ameríndios chamaram a Terra de Pacha-Mama, e, o modo ocidental reduzindo-a a um objeto, da mesma forma que reduz o feminino a um desejo. A moradia, que deveria ser um direito, tornou-se privilégio. A cidade, que deveria ser espaço de convivência, tornou-se campo de batalha entre proprietários e despossuídos. E grandes nações perseguiu seus iguais classificando-os de indesejados. No início, “nem atlas tinha o globo” (Canção da Terra, 2011).

Quanto mais a sociedade progride materialmente, mais se aprofunda a desigualdade. Estima-se que atualmente 10% da população global viva abaixo da linha da extrema pobreza, o que equivale a cerca de 826 milhões de pessoas enfrentando graves privações diárias. Enquanto isso os 10% mais ricos detêm cerca de 75% da riqueza mundial, enquanto os 50% mais pobres possuem apenas 2%. Será que o capitalismo deu certo em algum lugar? Estes são dados do World Bank Group (2026). 

O progresso técnico produz abundância, mas a lógica da propriedade transforma essa abundância em escassez artificial. Há casas vazias e pessoas sem casa; há alimentos sobrando e pessoas com fome; há terras improdutivas e pessoas sem-terra. O capitalismo não falha por falta de recursos, mas por excesso de propriedade. O problema não é a produção, mas a apropriação, que segundo Rousseau (1973) é mobilizador de desigualdade. E continua numa lógica de dominação, aquele que não possui deve vender sua força de trabalho para quem possui. A liberdade formal esconde a servidão econômica classifica-se em “jornada de trabalho”. 

O capitalismo levou a propriedade privada ao extremo, transformando-a no eixo de toda a vida social. Rousseau (1973), ao denunciar a propriedade como origem da desigualdade, não propõe um retorno ao estado de natureza, mas uma reflexão radical, é possível uma sociedade justa fundada sobre a propriedade privada?

Sua resposta implícita é não! A propriedade, ao criar desigualdade, cria também conflito, dependência e corrupção moral. O capitalismo, ao absolutizar a propriedade, transforma essa desigualdade em destino. O desafio contemporâneo é recuperar o sentido do comum, da terra como bem compartilhado, a moradia como direito, a cidade como espaço de convivência, a economia como meio de vida e não como máquina de acumulação. A terra tem um cheiro, e ele é de esperança.

Tudo aconteceu num certo dia
Hora de Ave-maria o universo vi gerar
No princípio o verbo se fez fogo
Nem atlas tinha o globo
Mas tinha nome o lugar
Era terra, terra
(Canção da Terra, 2011)


LITERATURA DE APOIO

CANÇÃO DA TERRA. Intérprete: O Teatro Mágico. Compositor: Pedro Munhoz, Bruna Ave Cantadeira. In: A Sociedade do Espetáculo. Part. Especial Pedro Munhoz. Osasco: Gravadora Independente, 2011. (3:56).

KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. São Paulo: Companhia Digital, 2023.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2009.

MELCHIORETTO, Albio Fabian. Que cheiro a terra tem? Diálogos entre o desenvolvimento regional e a geofilosofia. Curitiba: Editora BAGAI, 2026.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. A origem da desigualdade entre os homens. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Os Pensadores).


SOBRE O AUTOR

Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto. Doutor em Desenvolvimento Regional. Professor pesquisador ligado a Faculdade SENAC Blumenau, editor do podcast, Tecendo Ideias (Top 100 Education Podcasts) e escreve no Substack sobre o futebol catarinense ( https://albiofabianmelchioretto.substack.com/).

https://orcid.org/0000-0001-8631-5270


DECLARAÇÃO DO USO DE I.A.

Declaro que utilizei ferramentas de Inteligência Artificial generativa exclusivamente para apoio na revisão textual e organização da escrita deste documento. Todo o conteúdo analítico é de minha autoria e responsabilidade. Para tal foi utilizado o Gemini com GEM personalizado para correção e revisão de textos..



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