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O QUE HAVIA NAS MARGENS DO GRANDE RIO ANTES DA INVENÇÃO DE BLUMENAU?

 

Figura 1: foto divulgada no perfil @blumenauantiga, no Instagram. Colorida pelo pesquisador com ajuda de inteligência artificial. Atualmente foz do Ribeirão Garcia, ao fundo a "prainha", Ponta Aguda.


A descolonização da história é um processo complexo que envolve repensar as narrativas que moldam nossa compreensão do passado, este alerta é descrito na obra Descolonizar: abrindo a história do presente, do português Boaventura de Souza Santos (2022). Não se trata de apagar a história, mas de questionar as lentes pelas quais a vemos. A história não é uma verdade imutável, mas sim, um diálogo entre múltiplas vozes e perspectivas, como nos ensinou Félix Guattari e Gilles Deleuze (2011). Ao reconhecer que a história é construída socialmente, somos convidados a repensar como as narrativas do passado foram moldadas por poder e privilégio, muitas vezes silenciando ou marginalizando vozes importantes.

A descolonização da história é, portanto, um convite para incluir e valorizar as experiências de grupos que foram historicamente marginalizados. Isso não significa reescrever a história, mas ampliar a narrativa para incluir outras as vozes. A verdade não é única, mas um mosaico de narrativas, e a descolonização implica reconhecer que as histórias de diferentes grupos são igualmente válidas. “Não há uma entidade única denominada história” (Santos, 2022, p. 72). No entanto, isso levanta a questão de como equilibrar a autenticidade das experiências passadas com a necessidade de inclusão, sem cair em uma fragmentação excessiva. A resposta talvez esteja em construir uma história compartilhada que respeite as diferenças, mas também reconheça diferentes devires (Deleuze, 1974).

Se a descolonização significa questionar a própria ideia de uma única história, isso pode ser visto como um desafio. A história coletiva não precisa ser uma única narrativa, mas um coro de vozes, cada uma com seu próprio tom e perspectiva. Isso exige que criemos espaços para que todas as histórias sejam contadas e ouvidas, sem que uma voz domine as outras. Por exemplo, o que havia nas marges do grande rio antes da ocupação organizada pela Sociedade Protetora de Hamburgo e orquestrada pelo Dr. Blumenau?

A verdadeira descolonização, então, não é apenas sobre reescrever a história, mas sobre abrir espaço para que todas as narrativas coexistam e sejam valorizadas. Isso requer uma nova forma de entender a história como um diálogo contínuo entre o passado e o presente, entre diferentes experiências e perspectivas, como as narrativas dos europeus ocupantes, mas tão importantes quanto são as narrativas dos xoklengs e dos guaranis. “Descolonizar a história é pensar outras formas” (Santos, 2022, p. 74).

A questão de como garantir que essas histórias sejam ouvidas sem cair em novos silêncios é crucial. Isso pode ser alcançado através de práticas educacionais que promovam a diversidade de narrativas, através de museus, arquivos e instituições que reconheçam e valorizem as histórias marginalizadas. A descolonização envolve a criação de espaços para diálogo, onde as pessoas possam compartilhar suas experiências e perspectivas, e onde as narrativas conflitantes possam coexistir sem anular uma à outra. A história coletiva, então, é aquela que respeita a diversidade, mas mantém uma unidade que honra todas as experiências, mesmo as conflitantes. Para Boaventura de Souza Santos (2022) a colonização impõe linhas abissais que operam no tempo linear praticando espitemicídios. Isso é tão forte que na história do território de Blumenau, ele falsamente se inicia em 1850, mas antes disso? Que terra era esta que chamamos Blumenau?

A descolonização é uma prática social e política. Ela exige coragem para questionar as verdades estabelecidas e disposição para ouvir e respeitar as vozes que foram silenciadas e massacradas. A descolonização da história é um convite à reflexão, diálogo e ação. É um processo que exige que questionemos nossas noções de passado, presente e futuro, buscando uma história que seja verdadeira para todos, não apenas para alguns. Se a história é uma construção social, então podemos construí-la de forma mais inclusiva e justa, então, o que houve nas margens do grande rio antes da ocupação europeia?


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Post-scriptum: grande rio (Mã ou Hõprã) é a forma como o povo xokleng, segundo Walderes (2020), chamavam o que hoje conhecemos por Rio Itajaí-Açu. Na tradição xokleng os rios ou acidentes geográficos não recebiam nomes próprios. No tempo do mato (Fontoura; Oliveira, 2022), para o povo Xokleng, o rio foi um tempo de vivências não de demarcações e nomeações, com a ocupação do homem branco foi um marco de tortura e violências. O rio foi algo muito maior que um território físico que dificilmente conseguiria nomear.

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Referências

FONTOURA, Georgia; OLIVEIRA, Lilian Blank de. Povo Laklãnõ/Xokleng no/do Vale do Itajaí: cosmologia e memórias e/m re-existências. Siwo Revista de Teología, Heredia (Costa Rica), v. 15, n. 1, p. 73–109, 2022. Disponível em: https://www.revistas.una.ac.cr/index.php/siwo/article/view/16707. Acesso em: 12 maio 2026.

DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, Ed. da Universidade de São Paulo, 1974. (Estudos, no 35).

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2011. v. 1

SANTOS, Boaventura de Sousa. Descolonizar: abrindo a história do presente. Belo Horizonte: Autêntica Boitempo, 2022.

WALDERES COCTÁ PRIPRÁ DE ALMEIDA. A retomada do mõg. Florianópolis: Editora Editora, 2020.

Sobre o autor

Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto. Doutor em Desenvolvimento Regional. Professor pesquisador ligado a Faculdade SENAC Blumenau, editor do podcast, Tecendo Ideias (Top 100 Education Podcasts) e escreve no Substack sobre o futebol catarinense (https://albiofabianmelchioretto.substack.com/).

MyOrcId: https://orcid.org/0000-0001-8631-5270

Declaro que utilizei ferramentas de Inteligência Artificial generativa para apoio na revisão textual,  organização da escrita deste documento e tratamento da foto tema da postagem. Todo o conteúdo analítico é de minha autoria e responsabilidade. Para tal foi utilizado o ChatGPT.



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