Este texto pretende refletir, em poucas linhas, três modelos de resistência diante da ordem global massiva imposta pela política externa estadunidense. Enquanto o ocidente discute o que fazer para que as democracias não morram (Levitsky; Ziblatt, 2011), China, Coreia do Norte e Cuba vivenciam experiências de sobrevida.
“O caminho para o desenvolvimento não é tão simples como apontado por Adam Smith quando ele dizia que pouco mais é necessário para conduzir uma nação do mais baixo barbarismo até o mais elevado grau de opulência do que paz, impostos razoáveis e uma administração tolerável da justiça; tudo o mais sendo trazido pelo curso natural das coisas” (Guimarães, 2012, p. 103). Como alinhar desenvolvimento com democracia?
O cenário geopolítico contemporâneo atravessa uma transformação estrutural profunda. A ascensão da China desafia os modelos tradicionais de governança ocidental. Desde 1978, mudanças econômicas catalisaram um crescimento sem precedentes históricos. Este fenômeno reconfigura a balança de poder no sistema internacional. Conforme Guimarães (2012), o modelo chinês altera a percepção global de estabilidade democrática. É imperativo analisar as bases desse desenvolvimento estatal estratégico.
O planejamento estatal chinês prioriza o desenvolvimento de setores estratégicos nacionais. A fortificação das exportações impulsiona a acumulação de capital produtivo soberano. Investimentos externos são direcionados para consolidar a hegemonia econômica mundial. Ocorre uma industrialização acelerada frente a desindustrialização global, algo intensificado após a crise financeira de 2008. Diferente das democracias liberais, na China, o Estado coordena a economia de forma direta. Esta centralização administrativa busca garantir a eficácia de projetos de longo prazo. Mercado e Estado atuam em simbiose. “O sistema financeiro direciona grande parte dos recursos para as empresas estatais, que, em face da abundância de recursos, investem de maneira arrojada e efetivam investimentos pouco viáveis e de baixa rentabilidade” (Guimarães, 2012, p. 114).
Na vizinha chinesa, a Coreia do Norte através da política Zuche promove a fortificação da identidade cultural local, como Grossi (2015) explica. A construção quem forma uma comunidade autodeterminante contra interferências externas. A valorização das raízes impede a fragmentação da soberania estatal. Este isolamento estratégico visa mitigar pressões estrangeiras sobre os governos. Nas democracias estabelecidas, a ansiedade de status gera profunda instabilidade política em nome de construções individualizadas. Estados soberanos propõem, assim, alternativas ao paradigma da governança global uniforme. Não se pode julgar o modelo da República Popular Democrática da Coreia demais de mais de meio século de resistência. A experiência marca que muita coisa assertiva foi construída, mesmo diante de tantas interferências externas.
“Graças à grande mobilização do povo coreano o socialismo deu resultados. A produção industrial em 1960 foi 7,6 vezes maior que a de 1944. 95% das necessidades em máquinas e equipamentos do país podiam ser cobertas pela própria indústria. Entre 1961 e 1970, o crescimento industrial teve média de 12,8% ao ano. A população, que em 1946 era composta por 74,1% de camponeses e 18,7% de operários e empregados urbanos, passou para 44% de camponeses e 52% de operários em 1960XIX. Nesse contexto, Kim Il Sung vai desenvolver a sua teoria de socialismo, o Zuche” (Grossi, 2015, p. 8).
Enquanto isso na América Latina vivenciamos uma experiência nascida com a Guerra Fria e que não cessou, mesmo após a queda de todas as barreiras “vermelhas”. A resistência cubana exemplifica a resiliência estatal frente a sanções internacionais lideradas pela política colonial estadunidense. O embargo econômico injusto e desumano imposto pelos Estados Unidos persiste. Mesmo sob pressões externas severas, a estrutura social permanece coesa. Este cenário de resistência contínua exige uma mobilização nacional interna permanente. Farias et al. (2022) indica que interesses estratégicos frequentemente suplantam agendas de promoção democrática. A longevidade do modelo cubano desafia as previsões liberais de colapso inevitável. “Ademais, os Estados Unidos intensificaram o bloqueio econômico já estabelecido, por meio de leis como a Lei Torricelli, sancionada em 1992” (Farias et al., 2022, p. 9).
O avanço chinês e a resiliência cubana impõem novas realidades mundiais. A democracia liberal experimenta atualmente uma fase de recessão global. Democracias produzem desigualdades. A eficácia do planejamento centralizado questiona o pluralismo político tradicional. A história revela que a polarização extrema pode aniquilar as instituições. A ascensão de novos polos altera as diretrizes da ordem internacional.
Diante do sucesso de modelos centralizados e soberanos, o declínio da democracia liberal é uma morte necessária ou um erro histórico evitável?
Literatura de apoio
FARIAS, Hélio Caetano; LOURES, Débora Bedim; GÓIS, Carolina Côrtes. A moeda como fonte de poder: as sanções financeiras e a “bomba-dólar” em Cuba e na Venezuela | Currency as a source of power: financial sanctions and the “dollar bomb” in Cuba and Venezuela. Mural Internacional, Rio de Janeiro, v. 13, p. e66889, 2022. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/muralinternacional/article/view/66889. Acesso em: 10 jun. 2026.
GROSSI, Diego. A Revolução Coreana entre a questão nacional e o marxismo: o Zuche e a construção de um projeto patriótico na Coreia Socialista. Boletim Historiar, Aracaju, n. 12, 2015. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/historiar/article/view/4676. Acesso em: 10 jun. 2026.
GUIMARÃES, Alexandre Queiroz. A economia política do modelo econômico chinês: o estado, o mercado e os principais desafios. Revista de Sociologia e Política, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, v. 20, n. 44, p. 103–120, 2012. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782012000400009&lng=pt&tlng=pt. Acesso em: 10 jun. 2026.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
Declaração do uso de Inteligência Artificial
Imagem gerada por inteligência artificial. Como prompt foi apresentado o primeiro parágrafo com a frase: a partir deste parágrafo, produza uma imagem com estilo de grafite.
Sobre o autor
Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Filósofo. Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias (abre.ai/tecendoideias) e escritor da newsletter Futebol Catarinense (albiofabianmelchioretto.substack.com).
https://orcid.org/0000-0001-8631-5270

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