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POR UM MUNDO COM MAIS TÉDIO

 


Moramos na cidade, também o presidente. E todos vão fingindo decentemente. Só que eu não pretendo ser tão decadente, não! Tédio, com um T bem grande para você!” (Renato Russo, Legião Urbana, 1987). A música que abre o texto é uma gravação do rock brasileiro no período da redemocratização do Brasil. Momento da história em que as músicas marcavam um grito pela liberdade de expressão e questionamentos da superficialidade da vida urbana. Jovens insatisfeitos com os rumos marcados pela ditadura militar (1964-1985), viviam “fingindo decentemente” enquanto eram perseguidos em razão de suas opiniões. Expressar-se era um perigo. Falas superficiais, durante a ditadura representava segurança. O país vivencia sucessivas crises econômicas que distanciavam os jovens do ingresso ao mundo do trabalho, a hiperinflação diminuía o poder compra e a aumentava dificuldade de acesso ao ensino superior. A vida na cidade era superficial porque o jovem se sentia alienado às oportunidades. E na atualidade, quais são as causas de superficialidade que os jovens enfrentam?

Este texto objetiva pensar o tédio a partir da filosofia. A palavra tédio tem origem no latim taedium que significa desgosto, aborrecimento ou enfado. O tédio não é causa em si, mas consequência de algum comportamento ou situação, geralmente, externa ao indivíduo. Quando se diz, “estou entendiado” ou “determinada situação me causou tédio”, o sujeito afirma que algo o deixou desgostoso ou aborrecido. Um sujeito enfadado é aquele que busca outra situação para superar o instante. Há uma relação direta de causa e efeito. Mas, esta condição, não é a única possível, o tédio é um instante que poderia ser classificado como superficial quando analisado superficialmente ele, desvela outras possibilidades.

Alguém poderia, a esta altura, questionar-se sobre a proximidade do tédio com a filosofia, afinal são condições díspares. Antes de aproxima-los, recordo de um conceito importante dos pensadores franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari. Para eles, fazer filosofia é criar conceitos. A atividade do filósofo não é buscar referências de outros filósofos, mas sim, criar conceitos. A inventividade do filósofo é uma dança com palavras, permitindo movimentos ousados criando outros passos, ou possibilidades conceituais. Nesta tentativa de criar conceitos trago o filósofo norueguês Svendesen, afirmou que o tédio está associado a uma perda de mundo. A superação se dá diante de mecanismos de troca, composição ou substituição, trocando o enfado por algo mais “interessante”. Neste caso, se o tédio é uma perda do mundo, trocamos este mundo por outro, e na ausência de algo prazeroso criaremos fugas.

Para ler o tempo presente recorro ao filósofo coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han. Ele afirma que vivemos num tempo dominado por algoritmos. Eles determinam, por exemplo, em mídias sociais, o que acessarmos, qual conteúdo recebemos, qual é a bolha de interesse que cada usuário se inscreverá. A liberdade neste novo cenário é superficial. Ao mesmo tempo que os humanos usufruem de uma liberdade de ir e vir mais segura que outros tempos históricas, o sujeito é aprisionado a um mundo de informações – controladas por algoritmos, e estes determinam o que é de maior e de menor interesse para o usuário, uma espécie de panóptico digital. O tempo, antes experimentado, tornou-se uma economia de consumo. Se as ideias de Han parecem confusas, basta perguntar-se, quanto tempo por dia passamos na frente das telas? Essa pergunta faz pensar que a liberdade do tempo presente é capturada pela lógica de algoritmos que determinam o que é acessado, quando é acessado e quais são os interesses do sujeito e quanto tempo é aprisionado pelas telas.

O tempo do sujeito tornou-se uma moeda. Aplicativos de mídias sociais capturam nossa atenção, retendo o nosso tempo com movimentos de visualizações superficiais. O acesso às mídias é free e elas lucram com o tempo de permanência do usuário. Passa-se o dedo pela foto rapidamente para acessar a foto ou vídeo seguinte. Perguntar-se sobre os detalhes da foto não faz mais sentido. Como também não faz sentido mergulhar nas profundezas da informação. Recebemos em quantidade sem importar-se com a qualidade daquilo que é entregue. E na superficialidade da informação somos vigiados através da geração de dados. Cada usuário é um dado dentro de um grande banco, mas não é o sujeito em si, mas o que ele consome com os olhos, quais as informações capturam maior atenção e qual é ignorada. E na economia sobre o tempo passado diante da tela quando se percebe já foram muitos minutos ou horas. Já perdemos o tempo do “chá das cinco”.

No movimento das telas percebe-se a ausência de outros fatos importante, o tédio. Os usuários de mídias sociais passam grande parte dos dias conectados a elas. A conquista de likes ocorre na conexão, quase que perene. Não há lugar no ciberespaço para o navegador de tempo parcial, ele exige a economia da totalidade do tempo. Nesta enxurrada informacional, os usuários das mídias sociais tem negado o acesso ao tédio porque as telas promovem um certo tipo de prazer, ainda que superficial. Quando uma atividade se torna enfadonha, o usuário a abandona para dedicar-se as telas em busca de um prazer momentâneo. Já imaginou o tédio de passar 40 minutos ouvindo alguém palestrando? E no prazer do tempo presente o tédio desaparece. Logo, na janela de oportunidades, o prazer do instante presente supera o tédio. O falseamento das telas cria a ilusão que a conexão perene proporciona uma saída aquilo que é enfadonho.

A sociedade que tem acesso a muitos canais de informação, ao mesmo tempo, torna-se cada vez menos informada. O paradoxo não diz respeito a qualidade do acesso ou de conteúdos, mas a uma determinada economia do tempo. Mas então, como se tornar inventivo quando o tédio é negado? Se tudo é tão rápido ou fluído, como nas mídias sociais, como valorar a possibilidade de um outro-tempo? Essa possibilidade poderia ser “entediante”. A economia do tempo é a lógica do capital que nos torna preocupados com todas as agendas. O sujeito livre seria aquele não age conforme as determinações do capital, mas sim, aquele que é capaz de questionar sobre a eterna ocupação. Esse questionar implica uma atitude de enfrentamento das superfinalidades que atuam sobre a sociedade. O passar de telas, ou o toque compulsivo a elas, não é uma liberdade, senão, a aceitação da superficialidade das ações. Ao mesmo tempo que vejo muitas coisas, sou também observado e julgado. As ações não são reais, mas virtuais que atuam e alimentam o ciber-virtual.

A saída deste problema está na condição de viver uma experiência do tempo que seja significativa. Essa experiência não se reduz a lógica do mercado que captura o tempo. Viver a experiência do tempo é sentar-se à margem de todas as ocupações e sentir o tédio como condição existencial. Eu sinto tédio e desejo viver. Eu sinto o tédio e desejo experimentar o instante dele porque essa experiência se passa sobre a vida das escolhas e desejos. O sujeito enfrenta a si mesmo. Mas há outras formas de tédio, que parecem objeto de análise. Falo aqui do tempo de qualidade, aquele que não é reduzido a uma lógica de produtividade, mas sim, de um tempo regido pela qualidade do encontro e não das palavras ou das ações. O encontro consigo, ali, no silêncio e não com o falso outro que surge com um sorriso com selfie. A experiência é um sentido de envolvimento que produz uma sensação diferente daquela anotada por relógios.

Viver uma experiência é mergulhar em águas profundas. Se o tempo das telas reside na velocidade da troca, ele está naquilo que é raso. O mergulhar é uma condição daquele que está fora da tela, vivendo certo aborrecimento. O sujeito aborrecido, mas questionador é capaz de superar a enxurrada de informações recebidas para avaliar a presença de qualidade sobre si. O tempo não é apenas virtual, no sentido aqui empregado, mas é uma condição que exige uma adaptabilidade a uma outra sujeitação, não aquela do relógio, mas a condição que é permitido dizer livremente, estou aprendendo fora da lógica do algoritmo da infocracia.

Sou livre para me expressar agora – coisa que não se era na ditadura, pois o panóptico do guarda vigilante desapareceu. Então, porque a superficialidade das opiniões continua? Talvez seja a atuação de outros mecanismos de controle. A época das telas impede que o tédio e o pensar atuem livremente porque as telas atuam como um panóptico digital. Um tempo de superficialidades e de posicionados rasos. E como a Legião Urbana cantou, “e todos vão fingindo decentemente” e acreditam que isso tudo é aceitável, menos o tédio.

A experiência do tédio é muito mais que ficar sem telas ou com um comportamento que passe longo dos olhos do Grande Irmão para citar George Orwell. A experiência do tédio é a fuga dos algoritmos e, ao mesmo tempo, a fuga dos padrões enrijecidos do “sempre foi assim”. Na economia do tempo capturada pela tela, a resistência seria a negação do prazer imediato buscando momentos de tédio. A supressão do enfadonho, trouxe instantes de prazer, mas eles não são suficientes para descrever a inventividade, o surgimento do novo, ou da contestação. O tempo do prazer é da imediatez, e nela a inventividade e a novidade parecem não ter espaço. Então, para fugir da superficialidade da enxurrada de informações se faz necessário o tédio, e que ele seja com um T bem grande para você.


Literatura citada

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? 3. Ed. São Paulo: Editora 34, 2010.

HAN, Byung-Chul. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Petrópolis: Editora Vozes, 2022.

ORWELL, George. 1984. Barueri: IBC, 2025.

SVENDENSEN, Lars. Filosofia do tédio. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.


Sobre o autor

Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Filósofo. Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias (abre.ai/tecendoideias) e escritor da newsletter Futebol Catarinense (albiofabianmelchioretto.substack.com).


Imagem

Tédio, personagem do filme Divertidamente 2, tratada como apatia ou desmotivação. Imagem extraída do site da CNN Brasil. Será que o tédio é apenas isto? 


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