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PRIMEIRO ENSAIO PARA PENSAR UMA EPISTEMOLOGIA DO EXCLUÍDO

 


Em janeiro fui comprar um livro de presente para um amigo. Quando compro livros trago um para minha biblioteca. Nem todos os livros presentes nela foram lidos. Certa vez, Umberto Eco afirmou: “é tolice pensar que tem de ler todos os livros que compra, pois é tolice criticar aqueles que compram mais livros de que alguma vez conseguiram ler. Seria como dizer que deve usar todos os talheres ou óculos ou chaves de fenda que comprou antes de comprar novos”. 

O livro de Boaventura (Santos, 2022) foi escolhido para a biblioteca porque cada vez que usava o conceito de descolonizar, precisava buscar algum artigo para referenciá-lo. Agora tenho a fonte. O uso do conceito descolonizar em meus textos tornou-se frequente. Não quero falar do texto, mas realizar uma primeira explanação de algo que tem causado incômodos. Se uma leitura não trouxer interrogações, ela simplesmente passou e esta é a primeira vez que abordo o conceito.

Em "Descolonizar", o autor oferece uma crítica contundente à hegemonia epistemológica ocidental, revelando como ela perpetua o "colonialismo do saber" que invalida e suprime repertórios de conhecimento não-ocidentais. Algumas heranças intelectuais criaram nosso modo de pensar. Por exemplo, falamos tranquilamente em herança portuguesa e raramente reconhecemos a herança ameríndia. Na obra, o autor diagnostica a "monocultura do saber" porque ela se forma como uma das bases da dominação global, responsável pela marginalização de vozes e experiências plurais. Para contrapor essa lógica, Santos (2022) desenvolve o conceito das "Epistemologias do Sul", que buscam a revalorização de saberes historicamente subjugados e a emergência de novas formas de pensar e conhecer. Gostaria de discutir um conceito próximo, a “epistemologias do excluído”. Adiante abordarei o tema. 

Boaventura propõe a construção de uma "ecologia de saberes", onde diferentes formas de conhecimento – científico, popular, indígena, ancestral, dialogam em termos de igualdade, reconhecendo limitações e potencialidades. Tal perspectiva fomenta a justiça cognitiva e outras formas de vida num pluriverso de dignidades e direitos. Em essência, "Descolonizar" é um convite à imaginação sociológica e política para a construção de futuros justos e equitativos.

A ecologia de saberes proposta por ele considera o conhecimento um conjunto. Quando eu penso na epistemologia do excluído refiro-me a uma categoria específica. Não falo no modo tradicional de epistemologia e tampouco se pretende desclassificar as formas de conhecimento já categorizadas. Falo dos saberes daqueles que foram logrados à margem dos saberes consolidados e legitimados por uma lógica dominante. Entre as Epistemologias do Sul há um grau significativo de saberes tornados à margem dos que, em certo grau, já foram constituídos. 

Quando escrevi “Que cheiro a terra tem?” algo me trouxe desconforto (Melchioretto, 2026). Os entrevistados desconheciam a história do território pesquisado antes dele ser ocupado pelos europeus migrantes. Aqueles que ocuparam o território não reproduziam Epistemologias do Norte, porque vieram para cá numa hinterland do saber. Chegaram na América do Sul numa fuga desesperada da perseguição imposta por conflitos locais e da pobreza que tomava conta da Europa. Não foram os heróis de uma epopeia de colonizar uma terra de selvagens. Antes, saíram como selvagens em busca de sonho além-mar. Ao chegar nesta terra, os oprimidos assumiram a voz do opressor. “Irmandade com os colonizadores externos ou internos, são uma metáfora cruel da opressão injusta de quem continua a sofrer” (SANTOS, 2022, p. 11). Acolher o conhecimento excluído, mas, sem irmandade houve a imposição do sofrimento.

A colonização é uma imposição de forças violentas e de verdades, tão violentas quanto as forças. Fora da verdade, para os vencedores, não haveria história. Então, esta suposta ideia de verdade seria uma linha abissal. Por exemplo, quando penso Blumenau e os produtos históricos desta história colonizadora, questiono o que há de história de Blumenau antes da chegada dos primeiros europeus às margens do Rio Itajaí-Açu em 1850? Sequer havia Itajaí-Açu... o “grande rio” (Almeida, 2020), apesar do mesmo acidente geográfico, era registro de outras-histórias. O excluído da Europa habitou outra terra e fez dela um lar, e o lar daqueles que havia foi destruído, numa violência sem precedentes. 

Ao levantar a própria voz os europeus desconsideram os saberes locais. Além da colonização de saberes houve uma lógica do excluído, que ao sonhar com a Nova Terra (Melchioretto; Aumond, 2020) promoveram um ato de exclusão sobre os ocupantes, ainda que esses fossem nômades. Quando os europeus chegaram no Vale do Itajaí, por exemplo, promoveram a exclusão e a perseguição dos Xoklengs, sem dar-se conta que ambos são filhos da mesma Mãe Terra. E neste processo de perseguição entre irmãos percebo a existência de uma epistemologia do excluído. “O colonialismo não é uma condição do passado, é uma condição do presente” (SANTOS, 2022, p. 11). Mas, os saberes construídos no Vale, agora do Itajaí, têm muito da história não reconhecida. Um exemplo, é a receita da Cuca, tão diferente daquela vinda da Europa (cf. Melchioretto; Holz, 2023).

Talvez aqui, quando falo em epistemologia do excluído eu ainda quero falar de um modo de pensar latino-americano. Pensar o colonialismo para superá-lo, e superar neste território não é apenas repudiar o modo europeu de imposição, mas pensar a superação das diferentes linhas abissais que foram impostas, tanto pela elite europeia, quanto pela mão de obra substituta dos escravos que aqui permaneceu.  Parafraseando Boaventura, há o falar desta Nova Terra, e não a respeito da Nova Terra. Mas falar dela é valorar todos os saberes que atravessam a Terra. Pensar a partir do Território. 

A epistemologia do excluído é reconhecer os diferentes dispositivos que regulam a vida. No reconhecimento percebe-se quais são os dispositivos de limitação, repetição e de proibição do inventivo. A invenção permite reconhecer as contradições nos regimes impositivos. A contradição impede o que é novo, impede o surgimento de algo inventivo ou de um regime de conhecimento e pauta sempre na execução do “mesmo”. 

Então, qual saída para superar o estado de exclusão? Talvez não haja uma desexclusão, mas apenas linhas de resistência, como apontaria Deleuze, embora ele nunca tenha escrito “linhas de resistência”. No vídeo O abecedário (2021) o autor afirma que “criar é resistir”. O ato da criação é apresentado como uma resistência frente as lógicas do capital e suas imposições sistêmicas que geram exclusões. Criar é uma ação inventiva, que impõe a diferença frente as repetições. Uma epistemologia do excluído não seria uma imposição, no sentido dominador, mas a possibilidade de pôr-se diante daquilo que é sistêmico. O sistêmico gerou uma margem, e diante da margem a saída que poderia ser inventiva.

Ainda assim, a resistência não caberia numa voz solitária. A resistência seria possível numa relação em rede. E aqui não falo de rede sociais ou mecanicismos semelhantes. Ainda com Deleuze,  

“se não formarmos escolas, e as escolas não me parecem algo muito bom, só há o regime das redes, as cumplicidades. Claro, sempre foi assim em todas as épocas. O que chamamos de romantismo, por exemplo, o romantismo alemão ou em geral, é uma rede. O que chamamos de dadaísmo é uma rede. Tenho certeza de que há redes hoje em dia. […] a função da rede é resistir e criar” (Deleuze, 2021, p. s/p). 

Pensar em redes implica compreender a resistência como prática comunitária. Não se resiste apenas na individualidade. A resistência se faz no encontro, na cumplicidade e na tessitura de forças que recusam permanecer isoladas. A rede, nesse sentido, não é mero arranjo funcional, tampouco mecanismo técnico de conexão; ela é uma forma de existência coletiva diante das linhas que produzem exclusão. Talvez esteja aí uma possibilidade para a epistemologia do excluído, não como voz única que reivindica lugar no centro, mas como composição plural de saberes, práticas e criações que, ao resistirem, inventam outros modos de habitar a margem.


Literatura de apoio 

ALMEIDA, Walderes Coctá Priprá de. A retomada do mõg. Florianópolis: Editora Editora, 2020.  

DELEUZE, Gilles. O abecedário de Gilles Deleuze. Rodrigo Lucheta, 2021. DVD Transcrito. Disponível em: https://machinedeleuze.wordpress.com/2021/06/07/o-abecedario-de-gilles-deleuze-transcricao-completa/. Acesso em: 22 jun. 2026. 

MELCHIORETTO, Albio Fabian; HOLZ, Juliana Sa. Kuchen: doce, extensão e participação. In: Anais da Semana Acadêmica SENAC SC 2023. Florianópolis: SENAC, 2023. p. 40–45. Disponível em: http://repositorio.sc.senac.br/handle/12345/14004. Acesso em: 20 nov. 2023. 

MELCHIORETTO, Albio Fabian; AUMOND, Juarez José. A reterritorialização do rural frente a expansão do urbano: a dança de uma nova terra. In: XVI Seminario Internacional de la Red Iberoamericana de Investigadores sobre Globalización y territorio, 2020, Blumenau. Anais [...]. Blumenau: Universidade Regional de Blumenau - FURB, 2020.  

MELCHIORETTO, Albio Fabian. Que cheiro a terra tem? Diálogos entre o desenvolvimento regional e a geofilosofia. Curitiba: Editora BAGAI, 2026.  

SANTOS, Boaventura de Sousa; SANTOS, Boaventura de Sousa. Descolonizar: abrindo a história do presente. Belo Horizonte: Autêntica Boitempo, 2022.  


Declaração do uso de Inteligência Artificial

Imagem gerada por inteligência artificial, ChatGPT. Como prompt foi apresentado o sexto parágrafo e acrescentou-se produza uma imagem com estilo de grafite.


Sobre o autor

Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Filósofo. Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias (abre.ai/tecendoideias) e escritor da newsletter Futebol Catarinense (albiofabianmelchioretto.substack.com).

https://orcid.org/0000-0001-8631-5270

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