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EU TENHO MEDO DE COMUNISTAS

O que significa ser comunista? Esta é uma questão que me inquieta há tempos. Em novembro de 2006, o então presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rabelo, na ocasião PCdoB (Partido Comunista do Brasil), assumiu temporariamente a Presidência da República.  Tratava-se do primeiro presidente “comunista”, desde Jango (1961-1964), então PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Na ocasião, em 2006, ao chegar à padaria encontrei uma senhora aos prantos. “Agora o Brasil vai se tornar um país comunista, terei que dividir minha casa com um estranho”. Em lágrimas ela comprou pão e foi embora. A cena daquele desespero da ignorância ficou gravada. Afinal, quem tem medo de comunista teme exatamente o que?

Para auxiliara pensar esta questão, recorro a Negri e Guattari (2017).
No primeiro capítulo da obra As verdades nômades, os autores apresentam um texto que ajuda a pensar o temor. Eles dizem, “todas as revoluções foram traídas e nosso futuro parece carregado de uma inércia histórica insuportável” (Negri; Guattari, 2017, p. 7). O tempo presente, desde a Revolução Industrial, foi moldado pela lógica do trabalho individual. Caso o sujeito trabalhe ele amplia a possibilidade do sucesso. O trabalho não é condição de subsistência, mas caminho dito para o sucesso. A lógica do trabalho, como caminho, é condição, ainda que ilusória, para acumular capital. O comunismo, no imaginário popular, parece se opor a lógica da acumulação do capital. Se a acumulação do capital, o sucesso torna-se improvável, logo, o comunismo poderia ser sinônimo de fracasso.

A lógica do trabalho é individualizante, rompendo com tradições antigas que pregavam o bem comum, a coletividade e a fortificação da comunidade através da partilha dos bens conquistados. A partir da Revolução Industrial, os que defendiam a coletividade, com os sindicados ou associação de trabalhadores, foram tachados como desordeiros. Aqui há um peso na palavra. O que questiona a lógica do trabalho está fora da ordem. “Ele provoca a “des-ordem”, logo, não deveria ser um bom sujeito”, sendo assim, alguém a se tomar certa distância. A busca pelo bem comum, em vez de virtude, foi tomada como uma traição à ordem. 

A associação do desordeiro com o comunista, em vez de ser vista como virtude foi interpretada como traição à ordem. A isso, se somam as experiências fracassadas do socialismo. Todas as experiências aplicadas – e veja que loucura, transpor uma teoria para uma prática – sucumbiram à transformação almejada. O trabalho como bem comum, tanto na União Soviética, quanto Cuba, Vietnã ou China transformou-se em trabalho maquínico. Em vez de construir uma coletividade comunista, o trabalho reforçou o acúmulo de capital dado a partir da vigilância permanente, tal qual no capitalismo. Negri e Guattari alertam que o socialismo foi capturado pela ideia de progresso. Basta observar no que a China se transformou!

Portanto, quem tem medo de comunista teme exatamente o rompimento da lógica de acúmulo do capital. Este modo de pensar está consolidado e já ultrapassa 300 anos de existência. Então, qualquer proposta diferente trona-se estranha, porque se normalizou um modo de vida que consiste em vender a força de trabalho por valores pífios diante daquilo que o próprio trabalhador valha. Diante desta diferença Negri e Guattari chamam atenção que o trabalho deixou de lado a singularidade da identidade para focar na individualização de cada ser. Na individualização não existem lutas coletivas, afinal de contas, “comunidade e singularidades não se opõe” (Negri; Guattari, 2017, p. 13).


Literatura de apoio

NEGRI, Antonio; GUATTARI, Félix. As verdades nômades: por novos espaços de liberdade. São Paulo: Autonomia Literária, 2017. 


Sobre o autor


Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Filósofo. Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias (abre.ai/tecendoideias) e escritor da newsletter Futebol Catarinense (albiofabianmelchioretto.substack.com).





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