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A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL EM TEMPOS DE DESAFETOS E DESUMANIDADES

 

Foto: Pixabay/ CreativeCommons

Quais são os riscos que a inteligência artificial representa? “O celular estraga as crianças”; “as novas tecnologias fizeram a juventude se perder”. São frases tolas ditas na superficialidade do momento. É evidente que devemos nos preocupar com o uso de tecnologias, mas desacreditá-las é problemático. Este ano, Papa Leão XIV trouxe uma reflexão pertinente sobre a inteligência artificial que vai além da preocupação rasteira.

"É oportuno partir de duas considerações: a primeira é que qualquer afirmação sobre a IA corre o risco de se tornar obsoleta em pouco tempo, dada a impressionante velocidade de desenvolvimento destes sistemas. A segunda é que todos nós, incluindo quem os projeta, sabemos muito pouco sobre o seu funcionamento efetivo. Na verdade, as inteligências artificiais modernas são mais “cultivadas” do que “construídas”: os programadores não projetam diretamente todos os detalhes, mas criam uma arquitetura sobre a qual a IA “cresce” (Leão XIV, 2026, n. 98).

Questionar-se sobre os riscos da IA é uma ação válida desde que esteja vinculado a uma fundamentação conceitual; caso contrário resume-se uma posição tão vaga quanto aquela produzida pela IA com o prompt fajuto. O que motiva esta postagem não são as críticas daqueles que negam hipocritamente a tecnologia, mas sim a noção de liberdade que irresponsavelmente é colocada em jogo quando há um uso leviano da IA.

O que chamo de leviano é o tipo de uso em que a consulta às informações na internet é mediada por ferramentas de IA, através do modo IA. Por exemplo, em vez de buscar no Google (ou em livros, atenção, leitor!) e usar um dos sites apontados por ele, nos acostumamos rapidamente com as respostas geradas pela IA. E se isso ainda não fosse suficiente, há aqueles que realizam “desabafos” ou buscam aconselhamentos pessoais com tais ferramentas. Os modelos de respostas generativas são construídos a partir de uma análise matemática probabilística dada a partir de vieses de confirmação. Não há interpretação, no sentido humano afetivo, senão uma soma de ações possíveis, dadas “sem coração”. O humano inicia o processo de desumanização quando aceita que uma máquina fale sobre seus sentimentos.

O problema dessa situação é a liberdade tolhida. O indivíduo em vez de escolher a construção de uma resposta para os anseios pessoais, ele as submete à IA, e esta realiza escolhas. “Se a IA diz, deve ser verdade”, afirmará o tolo. Ao abrir mão da possibilidade de escolha, aceita-se que outrem o faz. O princípio da aufklärung kantiana é suprimido e a autonomia da ação desaparece. O indivíduo é sujeitado pelas escolhas probabilísticas dada por um algoritmo desconhecido, e muito bem orquestrado por big techs. A abstenção do poder de escolha constrói o sujeito escravo, sem conhecer claramente que é o seu senhor.

O que temos com a IA é um indivíduo que não pensa por si e transfere o poder decisório da própria vida para uma construção generativa. Leonardo Boff chama a atenção para o fato de que o uso da razão, não é mais do indivíduo, mas daquele que organiza as ferramentas. No apogeu da racionalidade há a completa ausência da razão para processos decisórios. Já não é o indivíduo que escolhe por si, mas a ferramenta que o faz a partir de um prompt. E quando o prompt é simplório as consequências são ainda piores.

O pesquisador Sterem D. Shaw afirma que vivemos num tempo de rendição cognitiva. O termo cunhado por ele demonstra que a humanidade atravessa por um momento em que a função de pensar foi delegada à inteligência artificial. Os usuários conservadores, em vez de agir com uma dinâmica de esclarecimento, tornam-se seguidores das respostas geradas pelos comandos. Conservam a resposta como se nela houvesse ‘a verdade’. Há uma renúncia da autonomia de escolha. Aquele que detém o poder sobre as escolhas, voluntária ou involuntariamente pode determinar o rumo dos tolos. Entretanto, a reunião de tolos pode determinar o rumo de uma comunidade ou na pior das hipóteses, o rumo de uma nação inteira. Tolos também votam.

Quando Jean-Paul Sartre escreveu que estamos condenados a ser livres ele não conseguiu prever a reunião dos tolos. Para ele o ser humano não está sujeitado ao determinismo, mas é possibilitado escolher. Contudo, chegou o tempo em que as escolhas sobre as decisões não são apresentadas diante de si, mas diante da máquina e atribuindo-lhe a chance de decidir qual a melhor saída. A IA não o faz pelo poder humano, senão pela soma de probabilidades com vieses. Então, há uma renúncia da própria essência, que é a de ser livre. Ao renunciar a liberdade acontece a privação da autonomia. Sem autonomia o ser humano deixa de lado aquilo que confere a ele a humanidade.

O maior risco do uso desenfreado da inteligência artificial é a desumanidade que ela gera. Se a humanidade reside no poder da liberdade, ela agora deixa de ser absoluta, como Sartre pensou que fosse. Será que a era da inteligência artificial marcará o fim da liberdade humana?

Literatura citada

BOFF, Leonardo. Inteligência artificial como paradigma da modernidade. [S. l.], 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/inteligencia-artificial-como-paradigma-da-modernidade-2/. Acesso em: 25 jul. 2026.

CHAVARRÍA, Paula Escobar. Steven D. Shaw, experto en IA: “La rendición cognitiva por la inteligencia artificial está ocurriendo”. Las Condes, Chile, 2026. Disponível em: https://www.latercera.com/tendencias/noticia/steven-d-shaw-experto-en-ia-la-rendicion-cognitiva-por-la-inteligencia-artificial-esta-ocurriendo/. Acesso em: 25 jul. 2026.

LEÃO XIV. Carta Encíclica do Santo Padre Leão XIV Magnifica Humanitas (15 de maio de 2026). Vaticano, 2026. Disponível em: http://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html. Acesso em: 25 jul. 2026.


KANT, Imannuel. Resposta a pergunta: o que é o iluminismo?. Crítica na Rede: Lusosofia, 2016.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. 4. Ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2021. (Vozes de bolso).



Sobre o autor


Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Filósofo. Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias (abre.ai/tecendoideias) e escritor da newsletter Futebol Catarinense (albiofabianmelchioretto.substack.com).


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