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A CIDADANIA COMO ESCLARECIMENTO


 O conceito de esclarecimento (Aufklärung) na filosofia de Immanuel Kant (2010) define-se como a saída do ser humano de sua menoridade autoimposta, ou seja, da incapacidade de utilizar a própria razão sem a tutela de outrem. Para o pensador alemão, essa transição exige a coragem de pensar de forma autônoma, rompendo com dogmas e direções externas que ditam o comportamento individual.

A coletânea organizada por Cidoval Morais de Sousa e Arão de Azevêdo Souza (2018) não mencione diretamente a filosofia kantiana, suas análises discutem amplamente a busca por essa autonomia no cenário brasileiro, pensado a partir da política. Assim, o esclarecimento se manifesta empiricamente quando os sujeitos sociais assumem o papel de agentes ativos na esfera pública, recusando as velhas tutelas políticas tradicionais. Compreender essa libertação intelectual permite-nos analisar como as ações coletivas podem impulsionar o amadurecimento crítico de uma sociedade, e por extensão conceituar melhor o conceito de cidadania, indo além da visão simplista de direitos e deveres. Poder-se-ia dizer que cidadania é a saída do estado de menoridade.

As Jornadas de Junho de 2013 foram uma efervescente onda de manifestações populares que tomou dezenas de cidades brasileiras, tendo como estopim inicial o protesto contra o aumento de vinte centavos nas tarifas de transporte público em São Paulo (Exame, 2013). Esse movimento de massa, o maior no país desde o "Fora Collor", em 1992, expandiu-se rapidamente para outras capitais e cidades de médio porte.

Os protestos caracterizaram-se pela ausência de uma liderança centralizada ou de movimentos sociais convencionais coordenando as ações, congregando uma juventude predominantemente estudantil e apartidária. Rapidamente, as ruas incorporaram uma vasta e diversa pauta de reivindicações, que incluiu:

  • ·         o combate à corrupção;
  • ·         a melhoria nos serviços de saúde e educação;
  • ·         críticas aos gastos bilionários com a Copa do Mundo.

Essa explosão urbana expôs a profunda crise da democracia representativa brasileira, na qual a classe política se apropriou da representação e deixou de respeitar as demandas reais da população. O exercício do esclarecimento kantiano exige o uso público da razão, o que se choca diretamente com o controle e a manipulação ideológica perpetrados pelos meios de comunicação convencionais. Conforme as análises da obra, a grande imprensa brasileira frequentemente difunde informações enviesadas que, em vez de esclarecer o cidadão, servem para confundir e manter o status quo. Isso bem antes de discutirmos o que é fake-news ou bolhas informacionais (cf. D’Ancona, 2018).

Diante dessa barreira, os manifestantes de 2013 apropriaram-se das tecnologias digitais móveis e das redes sociais para romper com esse monopólio comunicativo verticalizado, de certa forma, como Sousa (2018) apresentou, a primavera árabe brasileira. Esse fenômeno de "autocomunicação de massa" transformou cada participante em um cidadão-repórter, capaz de produzir, editar e veicular contra-informações em tempo real diretamente das ruas. Assim, o uso crítico da razão digital permitiu que a sociedade gerasse debates paralelos aos discursos hegemônicos, construindo uma nova esfera pública interconectada e autônoma.

O amadurecimento político do cidadão necessita do abandono de sua letargia cotidiana, uma transição que as manifestações de 2013 ilustraram de forma contundente ao sacudirem o país. Antes desses eventos, a sociedade brasileira parecia adormecida em um estado de "dormência crítica", conformada com as precariedades dos serviços públicos e a impunidade estrutural. O violento confronto policial em São Paulo funcionou como uma dolorosa centelha que despertou o "gigante" de seu sono esplêndido, impulsionando milhões de pessoas a agirem. Ao ocuparem as ruas e praças públicas, indivíduos anônimos abandonaram a condição passiva de meros espectadores e assumiram o protagonismo de sua própria história. Essa mobilização coletiva representou a transição de um inconsciente social para um consciente ativo, marcando a retomada da capacidade de reflexão e contestação sobre a vida democrática.

Afinal: “a revolução mobiliza sempre aqueles que vêem arruinadas suas esperanças” (Leford apud Matos, 1998, p.21) (Sousa, 2018, p. 23)

Em suma, as Jornadas de Junho revelam que os movimentos sociais são o laboratório empírico essencial para a germinação de um cidadão verdadeiramente esclarecido. A recusa à tutela partidária, o combate à desinformação midiática e a ruptura com a letargia social constituem os passos fundamentais dessa caminhada em direção à maioridade política. Todavia, o esvaziamento gradual dos protestos e a persistência de antigas estruturas de poder indicam que a conquista da autonomia plena é um processo inacabado e sujeito a retrocessos. Sousa (2018) nos lembra de que o saber das ruas e a agência cidadã não podem ser provocados ou contidos eternamente por decisões tomadas unicamente entre as paredes do Congresso Nacional. Somos responsáveis.

Diante desse cenário de efervescência que minguou, resta-nos indagar: as manifestações de 2013 representaram o despertar definitivo de uma consciência cidadã autônoma no Brasil ou foram apenas um espasmo temporário que assustou a classe política sem de fato transformar as estruturas de poder?

Literatura de apoio

D’ANCONA, Matthew. Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake-news. Barueri: Faro Editorial, 2018.

EXAME. O ano em que o gigante acordou. São Paulo, 2013. Notícias. Disponível em: https://exame.com/brasil/o-ano-em-que-o-gigante-acordou/. Acesso em: 7 set. 2026.

KANT, Imannuel. O que é o esclarecimento?. In: TEXTOS SELETOS. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2010. p. 63–71.

SOUSA, Cidoval Morais de. Jornadas de junho: repercussão e leituras. Campina Grande: EDUEPB, 2018. 

Sobre a imagem

Manifestante segura bandeira do movimento "Passe Livre"; durante protesto contra o aumento de R$0,20 centavos na tarifa do transporte púbico que foi o estopim das Jornadas de Junho de 2013 (Ueslei Marcelino/Reuters)

Sobre o autor

Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Filósofo. Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias e escritor da newsletter Futebol Catarinense no Substack.

https://orcid.org/0000-0001-8631-5270

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