Eleições sempre foram polarizadas, e elas se intensificaram durante da Ditadura Militar, no regime do bipartidarismo. Ou ainda é ruim acreditar que as eleições após a redemocratização são uma “festa da democracia” – democracia é outra coisa, não eleição. Para entender melhor o conceito de democracia e eleição sugiro a leitura de Direita e Esquerda, um texto de Noberto Bobbio.
Diante da polarização, realizei um experimento social através do status do WhatsApp. Postei, no domingo 11 de outubro, duas chamadas em imagens. A primeira era falsa e a segunda verdadeira. A falsa mostrava que Flávio Bolsonara prevê aumento da idade mínima para aposentadoria, chegando a 70 anos. No momento ela é falsa e só no momento! A segunda são dados sociais comparando o governo de Bolsonaro (PSL/PL) e de Lula III (PT). Os cinco índices mostram uma melhoria na qualidade de vida. Curiosamente, eleitores de Bolsonaro chamaram minha atenção apenas pelo fake e nada falaram dos dados. Uma escolha bem seletiva de informações e comentários.
Falso e verdadeiro são uma dicotomia perigosa, Deleuze e Guattari, ao demonstrar o rizoma mostram o risco da lógica enrijecia. Arrisco afirmar que o perigo não está na falsidade e sim na verdade. Muitos entendem a verdade como algo com teor religioso que beira a “revelação”. Lembram que o ex-presidente se igualou a Jesus dizendo que “eu sou a verdade e a verdade vos libertará”? Assumir para si a verdade é assumir uma condição religiosa de revelação que desconsidera que a verdade, ou as verdades, são constituídas historicamente através de forças de atuação, em vez de uma luz divina.
A partir das leituras de Michael Foucault entende-se que as crenças geram um produto e este, por sua vez, não depende de único objeto. Quando afirmamos que algo é falso e repudiamos, constituímos uma crença em torno deste objeto. Por vezes me pergunto quantas entidades atuam para sustentar a crença no bolsonarismo, mesmo quando dados e evidências desvelam o contrário. Para sustentar determinada condição, de crença no bolsonarismo, deva haver elementos que se distanciam da ideia de racionalidade. Por isso se afirma que a verdade, para este grupo, é dotada de transcendentalidade em vez de imanência.
O cartesianismo nos apresentou uma proposta de entidade da verdade como correspondência da realidade. Algo semelhante a ideia de emparelhamento entre sujeito e objeto. Mas, se a proposta de René Descartes ainda fizer sentido, diante da denúncia do fake, os dados deveriam ser comentados e assumidos como verdadeiro, e não apenas a denúncia. Ou não? Devo apenas repudiar o que consigo corresponder e ignorar a informação, ainda que ela possua uma correspondência com factual? Dificilmente é possível ser “meio-cartersiano”.
O que entendo diante do experimento é que vivemos, em vez da polarização, um momento preocupante, onde crenças impendem a compreensão racional do factual. Se as crenças servem apenas para denunciar uma falsidade e se torna incapaz de compreender o dado, existe uma margem considerável de pessoas que não conseguem visualizar sistematicamente o mundo, como Frajot Capra, já nos indicou. O que eu no cotidiano chamo de “bocós”.
E com isso volto ao experimento e assumo que o problema não está na polarização, mas sim, da forma como determinadas verdades e falsidades são constituídas. Se algumas condições são assumidas, como a denúncia de uma fake mobilizada por uma crença, e por outro a ignorância dos dados, mobilizado pela mesma crença, logo, existe um problema maior. E ele não é a politização, mas a construção de verdades a partir de crenças, ou como nos lembra Foucault, “verdades” são efeitos de regimes de poder, não crenças individuais. E quando determinados regimes atuam ao ponto de impedir uma visão sistemática se desvela uma lógica de manada que nega o todo para acreditar que um personagem possa ser o “caminho e a verdade”.
Literatura de apoio
BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Editora Unesp, 2010.
CAPRA, Frijot; LUISI, Pier Luigi. A visão sistêmica da vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. São Paulo: Cultrix, 2014. (Coleção Polêmica).
DESCARTES, René. Discurso sobre o método: para bem dirigir a própria razão e procurar a verdade nas ciências. São Paulo: Leopardo Edições, 2010. (Coleção Hemus filosofia).
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2011. v. 1
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. 4. ed. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2009.
PEREIRA, Renato Machado. A concepção da verdade-como-correspondência. In: VII SEMINÁRIO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA, 2011, São Carlos. Anais do VII Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar (2011). São Carlos: UFSCar, 2011. p. 374–384.
Sobre o autor
Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Filósofo. Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias (abre.ai/tecendoideias) e escritor da newsletter Futebol Catarinense (albiofabianmelchioretto.substack.com).

Comentários
Postar um comentário