A história da pecuária revela que o desenvolvimento regional foi construído por processos de ocupação e reorganização do território. No Rio Grande do Sul, as estâncias e a concentração fundiária contribuíram para a formação de elites agrárias com forte influência econômica e política. Em Santa Catarina e no Paraná, cooperativas, frigoríficos e sistemas de integração impulsionaram a expansão da produção animal. Esse modelo recebeu apoio de crédito, infraestrutura e políticas públicas orientadas ao crescimento das cadeias agroindustriais. Entretanto, os benefícios econômicos não foram distribuídos de forma homogênea entre produtores, trabalhadores, empresas e comunidades locais. Assim, o desenvolvimento regional passou a refletir relações desiguais de poder e acesso aos recursos. Quem diria que a concentração de riqueza geraria pobres? (#contém ironia).
Outro aspecto relevante é a transformação dos animais em insumos econômicos. Na lógica industrial, a vida animal é avaliada por indicadores de produtividade, eficiência e rentabilidade. O valor do animal passa a ser medido pelo ganho de peso, pela conversão alimentar e pelo rendimento comercial. Ao mesmo tempo, o território é reorganizado para sustentar fluxos de alimentação, reprodução, transporte e abate. Essa racionalidade reduz a relevância de características próprias dos animais que não contribuem para os objetivos produtivos. Dessa forma, a exploração se torna uma prática normalizada por estruturas econômicas e institucionais. Pensar o direito dos animais é uma possibilidade que emerge na reflexão que o ser humano não está para dominar a Terra, e que a releitura da criação em Gênesis, é no mínimo, equivocada.
A expansão desse modelo também produz efeitos culturais e morais relevantes. A distinção entre animais de companhia e animais destinados ao consumo não decorre apenas de diferenças biológicas. Ela resulta de hábitos alimentares, tradições, mercados e mecanismos de inviabilização da produção animal. Paralelamente, o bem-estarismo corporativo busca reduzir determinadas formas de sofrimento sem questionar necessariamente a condição dos animais como propriedade. Muitas melhorias podem gerar benefícios concretos para os animais e para a eficiência das empresas ao mesmo tempo. A questão central é saber até que ponto o bem-estar pode ser compatibilizado com um sistema baseado na utilização econômica da vida animal.
Pensar o desenvolvimento regional exige considerar alternativas além da dependência da pecuária intensiva. Diversificação econômica, agroecologia, transição justa e revisão dos incentivos públicos aparecem como caminhos possíveis para reduzir essa dependência histórica. Essas propostas não ignoram a importância econômica das cadeias animais nem os meios de vida vinculados a elas. Pelo contrário, procuram discutir formas de reorganizar a produção sem transferir os custos das mudanças para os grupos mais vulneráveis. O desafio consiste em decidir quais atividades devem orientar o futuro dos territórios e quais valores devem fundamentar essas escolhas. Se reconhecemos que os animais são seres sencientes e que o desenvolvimento resulta de decisões políticas, por que continuamos considerando legítimo organizar economias inteiras em torno de sua exploração sistemática?
Sobre o autor
Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Filósofo. Doutor em Desenvolvimento Regional. Editor do podcast, Tecendo Ideias (abre.ai/tecendoideias) e escritor da newsletter Futebol Catarinense (albiofabianmelchioretto.substack.com).
https://orcid.org/0000-0001-8631-5270
Como citar:
MELCHIORETTO, Albio Fabian. O agro não é pop. Blog do Professor, disponível em: https://albiomelchioretto.blogspot.com/2026/10/o-agro-nao-e-pop.html, 2026.
Comentários
Postar um comentário